Trabalho final: Revisão do pré-projeto (Igor Passos)
Título
do pré-projeto: (À) TERCEIRA MARGEM: PENSANDO
POSSIBILIDADES DE AÇÕES PEDAGÓGICAS NO ENSINO DE ARTES DESDE UMA PERSPECTIVA DE
AÇÕES PERFORMATIVAS
Palavras-chave
do pré-projeto: Ação Pedagógica; Ensino de Artes; Corpo;
Ecologia de Saberes; Ação Performativa.
Título
provisório: PISTAS em PERFORMANCE PARA UMA ÉTICA
DOCENTE EM ARTE
Palavras-chave provisórias: Ética; Docência; Metodologia de ensino em arte; Performance;
1) Aspectos gerais: problema de pesquisa e caminho percorrido
O
ar. Muitas coisas ainda pairam pela primeira vez nesse estado de flutuação,
invisível flutuação. O corpo se funde e se distancia – encontra diferença,
produz outros trajetos. No salto, paro no alto e olho para baixo, cada escolha,
agora lado a lado, agora distanciado, me possibilita um outro caminho: caminho
de viagem, deslocamento subjetivo. Estou em suspensão. Desapego, abro mão,
abraço outro mundo. Mas logo ali talvez eu abra mão novamente, desapegue de
novo, diga adeus e até logo.
Nesse
trajeto de re/visão, me desapego do presente e olho para o passado. É
analisando minha trajetória que consigo atualizar uma singularidade. Sou licenciado
no departamento de Artes Cênicas da Universidade de Brasília com um trabalho
majoritariamente em performance, muito aliado, ainda, à filosofia. Não havia me
atentado durante a escrita do pré-projeto, mas essa trajetória me possibilita
uma postura particular para com a sala de aula, abre um modo de habitar que é
marginal – enquanto margem, enquanto lugar tensional do entre.
No
decorrer do semestre, ao levantar a bibliografia, me deparo com uma definição
de performance que amplia minha percepção sobre a mesma, que me possibilita
refletir sobre essa tensão, essa margem gerada pela prática da performance.
Christine Greiner assim define performance:
Uma
ação cognitiva que precede a sistematização da linguagem e, ao mesmo tempo,
integra-se a ela agindo como uma espécie de operador de desestabilização de
parâmetros dados para o seu próprio reconhecimento [...]. Neste sentido, a
performance estaria mais próxima de um modo singular de perceber (a vida, o
corpo, o entorno) do que, necessariamente de uma linguagem (2013, p. 13)
Performance
como deslocamento, como caminho para desestabilizar, re/pensar, investigar a
singularidade das possibilidades que cada corpo tem de se colocar e se
relacionar. Como possibilidade de (se) perceber. Pode haver, portanto, na
radicalidade da prática da performance, a possibilidade de um éthos,
sendo esse potente para pensarmos o docente de artes, não enquanto aplicação de
uma linguagem, mas enquanto pistas de uma atitude que abre caminhos para uma
prática atenta ao que é produzido no encontro.
No
pré-projeto de pesquisa essa questão se apresentou inicialmente para mim
enquanto um possível caminho epistemológico, baseado na perspectiva das
epistemologias do sul. Agora, a questão se atualiza e se circunscreve dentro do
campo da ética. Encontro em Michel Foucault elementos interessantes para pensar
uma perspectiva ética desde a performance. Para Foucault, em linhas gerais, a
ética pode ser entendida como uma referência “à relação consigo mesmo, é uma
prática, um éthos, um modo de ser” (CASTRO, 2004, p. 156). Nesse
sentido, não há uma negação da moral em prol de uma ética, mas sim, um modo de
(se) exercer, dentro de uma moral, que se orienta pela ética.
(uma
pequena pausa. uma pequena intromissão de algo que acabo de recordar. Fui rever
minha auto apresentação na disciplina. Na época eu ainda estava firme na querência
de investigar a possibilidade epistemológica de desvio da performance, como prática.
Entretanto, no final do texto escrevo a seguinte frase: “Nesse trajeto me
interessa, ainda, as interseções possíveis entre ações performativas, educação
e filosofia na tentativa de tecer uma rede teórico-prática que dê conta de
materializar as forças que de/compõe os encontros para invenção de
caminhadas éticas.”. Pasmo em ver que, de algum modo, mesmo que
involuntariamente, a perspectiva ética já estava ali tentando se apresentar)
Tal
questão é importante para mim, pois antes de chegar a Foucault, estava
estudando a ética em Espinosa. De início, me pareceu muito interessante, mas ao
pensar a estrutura escolar e que é impossível negar seu conjunto de regras, um
impasse surgiu. Como trabalhar com o conceito de ética espinosano dentro desse
contexto? Percebo que não seria impossível, mas esse ponto por si só já daria
uma pesquisa, o que desmontaria meu ponto central de investigação: a
possibilidade de uma ética docente desde a performance. Foucault se
torna uma fonte interessante não só por desfazer o nó que encontrei ao pensar
com Espinosa, mas também por oferecer um arcabouço conceitual que adensa a
possibilidade de análise e reflexão, sendo alguns desses conceitos: discurso,
poder-saber, disciplina, governabilidade, cuidado de si, estética da
existência.
A
partir de todos os deslocamentos conceituais – que se tornam também operadores
– a questão que se levanta é circunscrita no interesse de investigar como a
performance pode oferecer estratégias que possibilitem um éthos em aula em
que o docente não é visto como um papel pré-definido, mas como um cultivo
atento dentro de uma rede de regras. Nomeio como éthos essa
possibilidade estratégica da performance, pois é exatamente aí que o problema
de pesquisa começa a se re/inscrever: quais são as pistas que a
performance, como uma prática operativa e analítica, pode fornecer para que o
docente desenvolva uma prática ética, de cultivo e coletividade?
Aqui penso nas relações de poder-saber estabelecidas no espaço escolar, além de
toda organização que movimenta um caráter disciplinador e produtor de corpos
dóceis. Uma prática ética, em vez de um olhar centrado na epistemologia, se
insere enquanto motor de desejo na pesquisa, no sentido de compreender que o
trabalho docente pode operar como perpetuador de si e do meio, ou como
provocador de ruptura, instaurador de outros modos possíveis de agir que abram
possibilidade de um conviver em coletividade, além de propor um processo em que
se vise uma aprendizagem inventiva em vez de uma troca de informações ou acúmulo
dessas; o docente pode, então, devir-mestre (KASTRUP, 2007).
Ao
longo das investigações, tenho compreendido ainda que essa postura ética, a
qual acredito que a performance pode fornecer pistas, ultrapassa a prática
localizada da docência, dissolvendo a separação entre professor e o que sou
quando não em exercício da docência. Ela convoca uma abertura à um movimento de
desterritorialização afetiva, micropolítica (ROLNIK, 2018). Entendendo que há
uma relação intrínseca entre formas e forças e que, operar uma mudança apenas
nas formas, não necessariamente causa uma real transformação nas posturas
éticas desenvolvidas a partir das relações em uma aula, no caso dessa pesquisa,
em aulas de arte. Tenho sido convidado a pensar que não existe uma
separabilidade no modo como agimos eticamente no mundo, não existem papeis a
serem interpretados, mas sim, modos de produzir relações a partir de
determinados princípios que não são eternos, nem únicos, mas sim localizados,
ou seja, podem ser engendrados a partir das necessidades de cada situação.
Isso
me fez questionar qual arte eu posso produzir no contexto de ensino-aprendizado
que fissure o saber instituído sobre o que é arte e quais seus limites de
linguagem. Inclusive por pensar na estrutura de nosso ensino básico, onde a
maior parte das escolas públicas não oferece, mesmo que previsto em lei, o
ensino separado de música, teatro, dança e artes visuais. Como, nesse caso,
transformar a falta em potência? Se a performance é uma possibilidade de
criação coletiva, acontecimento que desnaturaliza e tensiona o instituído,
quais pistas conseguimos produzir para propor uma prática docente centrada em
uma ética?
Os
deslocamentos surgidos ao longo do semestre a respeito do pré-projeto, também
foram fomentados pelo levantamento bibliográfico de produção discente – artigos
e dissertações, além de algumas situações vivenciadas em minha prática docente.
Consegui elencar, a partir do levantamento bibliográfico três grandes grupos que
compõe o modo em que tem sido trabalhadas as relações entre performance e
educação:
·
Performance como linguagem, o ensino
de performance: estudos relacionados a como a performance
é potente, enquanto linguagem a ser trabalhada, para desestabilizações do
status quo da escola.
·
Performance como caminho para
produção de aulas performáticas: aqui, a performance é
utilizada não apenas como um conteúdo a ser trabalhado, mas como uma “estética”
na elaboração de aulas que, assim como anteriormente dito, desestabilizam,
evidenciam, fazem emergir alguma questão.
·
Performance como estudo do desempenho
docente-discente: muito próximo dos estudos da performance,
temos aqui o desempenho docente sendo investigado. Não quantitativamente, mas
qualitativamente: como o corpo se porta em aula, o papel do corpo nesse
desempenho.
Esses
três focos de pesquisa mantêm, ainda, em separado a performance da educação. É
uma relação lado-a-lado, membranas impermeáveis entre performance e educação.
Acredito que a questão ética é uma maneira de tensionar essa relação, já que
toca na questão do modo-de-ser, para além da instituição da linguagem ou da
disciplina.
Outra
questão que precisei repensar foi a metodologia escolhida. Durante a escrita do
projeto, um processo cartográfico me parecia interessante – e ainda o creio –
entretanto, pelo tempo de pesquisa e todas as atividades necessárias, acredito
que não conseguiria dar cabo do processo me lançando em um terreno tão
escorregadio. As demandas me fizeram perceber que movimentar todo escopo
teórico que tenho encontrado, por exemplo, já me exigirá muito. Partir de um
caminho cartográfico talvez não me seja efetivo nesse momento. No processo de
levantamento bibliográfico, me deparei com a Etnografia escolar centrada na performance.
Nesse sentido, agora a metodologia se estrutura da seguinte maneira:
·
Observação de aulas de artes de três
professores/as da rede, período a ser definido até o fim do
ano (como se organizam as relações em aula? Quais relações poder-saber se repetem,
quais se diferenciam? Quais momentos de ruptura com a norma ou com o que é
esperado?);
·
Questionário inicial com os/as
professores/as participantes para compreender o que
pensam sobre a prática docente de artes;
·
Entrevista semiestruturada ao final do
período de observação, a partir do que foi observado;
·
Experimentação em minhas aulas para
investigação das possíveis pistas;
1) 2) Sumário
provisório:
Apresento
agora o esboço de sumário que tenho pensado para estruturar a materialização da
dissertação.
INTRODUÇÃO
(Trajetória de pesquisa, apresentação e delimitação do problema, metodologia e
conteúdo geral de cada capítulo)
CAPÍTULO
1
(performance e educação, fricções e surgimento de um problema: a ética docente
em arte – pedagogia crítico performativa)
CAPÍTULO
2
(performance e ética – perspectivas de conexão, reflexão e tensionamentos: de
qual ética falo? Existe uma ética na/da performance? Quais relações? Qual
importância para pensar a prática docente?)
CAPÍTULO
3
(pistas em performance para uma ética docente a partir do material empírico e
experimental. Capítulo se divide em subcapítulos)
3.1
Motivo de pistas e não um método/metodologia fechada e apresentação das pistas
levantadas.
3.2
Análise dos dados empíricos e experimentais a partir das pistas levantadas e
quais os desdobramentos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS (Retomada de alguns pontos, análise a partir dos objetivos iniciais de pesquisa, prospecção da pesquisa).
1) 3) Questões
em aberto, para reflexão:
· * Uma das questões em aberto diz respeito a
como estaremos no próximo ano em relação as aulas presenciais. A pesquisa não
se inviabiliza caso ainda estejamos em regime remoto, contudo o modo de análise
e proposições de pesquisa se transformam. (Por exemplo: o como acompanhar as
aulas, qual o foco do que será analisado, como se estruturará as questões para
questionário);
· * Outra questão diz respeito ao sumário –
que é uma forma de, também, pensar a pesquisa – é o como abordar as análises
dos dados: uma parte dentro de um capítulo é suficiente ou é melhor abrir um
novo capítulo apenas para análise?
· * No pré-projeto propus a criação de um blog
para compartilhamento e documentação do processo. Ainda é válido? Se sim, qual o
melhor formato?
· * Quais são as especificidades do que tenho
chamado, até o momento, de éthos da performance? Ele realmente existe?
· * Quais critérios para entrar em contato com
os professores/as de artes da rede? Chamada online? Qualquer professor/a pode
participar?
1) 4) Quadro
de relação autoras(es)/conceitos – Pré-projeto e Atual
1) 5) Cronogramas
(pré-projeto e atual):
Pré-projeto
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Etapa |
semestre 1 |
semestre 2 |
semestre 3 |
semestre 4 |
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·
Etapa 01: Cursar
as disciplinas obrigatórias e optativas;
·
Etapa 02: Montagem,
manutenção e fomento do site (memorial poético);
·
Etapa 03: Levantamento
e leitura de referencial teórico;
·
Etapa 04: Organização
e análise dos dados levantados;
·
Etapa 05: Escrita
da dissertação;
·
Etapa 06: Qualificação
da dissertação;
·
Etapa 07: Escrita
da dissertação a partir das sugestões da banca;
·
Etapa 08: Participação
em eventos acadêmicos e envio de artigos para publicação;
·
Etapa 09: Defesa
da dissertação.
Atual:
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Etapa |
mês
1 |
Mês
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3 |
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10 |
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11 |
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Etapa |
mês 13 |
Mês 14 |
Mês 15 |
Mês 16 |
Mês 17 |
Mês 18 |
Mês 19 |
Mês 20 |
Mês 21 |
Mês 22 |
Mês 23 |
Mês 24 |
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Etapa 01: Cursar
as disciplinas obrigatórias e optativas. No primeiro semestre cursei
Metodologia de Pesquisa (4 créditos) e Tópicos Especiais em Processos
Composicionais para cena (2 créditos). No próximo semestre pretendo cursar
Seminários Avançados (4 créditos), Prática Docente (4 créditos) e mais uma
matéria optativa para fechar os créditos finais (4 ou 2 créditos).
· Etapa 02: Levantamento
e leitura de referencial teórico e produção bibliográfica de
dissertações e artigos sobre o tema;
· Etapa 03: Levantamento
de possíveis professores/professoras de artes para acompanhamento de aulas e
produção de entrevista/questionário.
·
Etapa 04: Acompanhamento
de aulas e produção de entrevista/questionário.
·
Etapa 05: Experimentações
em aula.
· Etapa 06: Escrita
da introdução e do primeiro capítulo da dissertação para qualificação a partir
do material teórico e empírico.
·
Etapa 07: Escrita
de artigo para submissão (requisito para conclusão do mestrado);
·
Etapa 08: Qualificação
da dissertação;
· Etapa 09: Escrita
da dissertação a partir das sugestões da banca e desdobramentos das
experimentações e do material empírico produzido e analisado;
·
Etapa 10: Finalização
da dissertação e organização dos preparativos
·
Etapa 11: Defesa
da dissertação.
· Etapa 12: Participação em eventos acadêmicos;


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