Trabalho final: Revisão do pré-projeto (Igor Passos)

 

UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA
INSTITUTO DE ARTES - IdA
PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM ARTES CÊNICAS - PPG/CEN
DISCIPLINA: METODOLOGIA DE PESQUISA
PROFESSOR: MARCUS MOTA
DISCENTE: IGOR PASSOS (200085263)

Título do pré-projeto: (À) TERCEIRA MARGEM: PENSANDO POSSIBILIDADES DE AÇÕES PEDAGÓGICAS NO ENSINO DE ARTES DESDE UMA PERSPECTIVA DE AÇÕES PERFORMATIVAS

Palavras-chave do pré-projeto: Ação Pedagógica; Ensino de Artes; Corpo; Ecologia de Saberes; Ação Performativa.

Título provisório: PISTAS em PERFORMANCE PARA UMA ÉTICA DOCENTE EM ARTE

Palavras-chave provisórias: Ética; Docência; Metodologia de ensino em arte; Performance;

1)      Aspectos gerais: problema de pesquisa e caminho percorrido

O ar. Muitas coisas ainda pairam pela primeira vez nesse estado de flutuação, invisível flutuação. O corpo se funde e se distancia – encontra diferença, produz outros trajetos. No salto, paro no alto e olho para baixo, cada escolha, agora lado a lado, agora distanciado, me possibilita um outro caminho: caminho de viagem, deslocamento subjetivo. Estou em suspensão. Desapego, abro mão, abraço outro mundo. Mas logo ali talvez eu abra mão novamente, desapegue de novo, diga adeus e até logo.

Nesse trajeto de re/visão, me desapego do presente e olho para o passado. É analisando minha trajetória que consigo atualizar uma singularidade. Sou licenciado no departamento de Artes Cênicas da Universidade de Brasília com um trabalho majoritariamente em performance, muito aliado, ainda, à filosofia. Não havia me atentado durante a escrita do pré-projeto, mas essa trajetória me possibilita uma postura particular para com a sala de aula, abre um modo de habitar que é marginal – enquanto margem, enquanto lugar tensional do entre.

No decorrer do semestre, ao levantar a bibliografia, me deparo com uma definição de performance que amplia minha percepção sobre a mesma, que me possibilita refletir sobre essa tensão, essa margem gerada pela prática da performance. Christine Greiner assim define performance:

Uma ação cognitiva que precede a sistematização da linguagem e, ao mesmo tempo, integra-se a ela agindo como uma espécie de operador de desestabilização de parâmetros dados para o seu próprio reconhecimento [...]. Neste sentido, a performance estaria mais próxima de um modo singular de perceber (a vida, o corpo, o entorno) do que, necessariamente de uma linguagem (2013, p. 13)

Performance como deslocamento, como caminho para desestabilizar, re/pensar, investigar a singularidade das possibilidades que cada corpo tem de se colocar e se relacionar. Como possibilidade de (se) perceber. Pode haver, portanto, na radicalidade da prática da performance, a possibilidade de um éthos, sendo esse potente para pensarmos o docente de artes, não enquanto aplicação de uma linguagem, mas enquanto pistas de uma atitude que abre caminhos para uma prática atenta ao que é produzido no encontro.

No pré-projeto de pesquisa essa questão se apresentou inicialmente para mim enquanto um possível caminho epistemológico, baseado na perspectiva das epistemologias do sul. Agora, a questão se atualiza e se circunscreve dentro do campo da ética. Encontro em Michel Foucault elementos interessantes para pensar uma perspectiva ética desde a performance. Para Foucault, em linhas gerais, a ética pode ser entendida como uma referência “à relação consigo mesmo, é uma prática, um éthos, um modo de ser” (CASTRO, 2004, p. 156). Nesse sentido, não há uma negação da moral em prol de uma ética, mas sim, um modo de (se) exercer, dentro de uma moral, que se orienta pela ética.

(uma pequena pausa. uma pequena intromissão de algo que acabo de recordar. Fui rever minha auto apresentação na disciplina. Na época eu ainda estava firme na querência de investigar a possibilidade epistemológica de desvio da performance, como prática. Entretanto, no final do texto escrevo a seguinte frase: “Nesse trajeto me interessa, ainda, as interseções possíveis entre ações performativas, educação e filosofia na tentativa de tecer uma rede teórico-prática que dê conta de materializar as forças que de/compõe os encontros para invenção de caminhadas éticas.”. Pasmo em ver que, de algum modo, mesmo que involuntariamente, a perspectiva ética já estava ali tentando se apresentar)

Tal questão é importante para mim, pois antes de chegar a Foucault, estava estudando a ética em Espinosa. De início, me pareceu muito interessante, mas ao pensar a estrutura escolar e que é impossível negar seu conjunto de regras, um impasse surgiu. Como trabalhar com o conceito de ética espinosano dentro desse contexto? Percebo que não seria impossível, mas esse ponto por si só já daria uma pesquisa, o que desmontaria meu ponto central de investigação: a possibilidade de uma ética docente desde a performance. Foucault se torna uma fonte interessante não só por desfazer o nó que encontrei ao pensar com Espinosa, mas também por oferecer um arcabouço conceitual que adensa a possibilidade de análise e reflexão, sendo alguns desses conceitos: discurso, poder-saber, disciplina, governabilidade, cuidado de si, estética da existência.

A partir de todos os deslocamentos conceituais – que se tornam também operadores – a questão que se levanta é circunscrita no interesse de investigar como a performance pode oferecer estratégias que possibilitem um éthos em aula em que o docente não é visto como um papel pré-definido, mas como um cultivo atento dentro de uma rede de regras. Nomeio como éthos essa possibilidade estratégica da performance, pois é exatamente aí que o problema de pesquisa começa a se re/inscrever: quais são as pistas que a performance, como uma prática operativa e analítica, pode fornecer para que o docente desenvolva uma prática ética, de cultivo e coletividade? Aqui penso nas relações de poder-saber estabelecidas no espaço escolar, além de toda organização que movimenta um caráter disciplinador e produtor de corpos dóceis. Uma prática ética, em vez de um olhar centrado na epistemologia, se insere enquanto motor de desejo na pesquisa, no sentido de compreender que o trabalho docente pode operar como perpetuador de si e do meio, ou como provocador de ruptura, instaurador de outros modos possíveis de agir que abram possibilidade de um conviver em coletividade, além de propor um processo em que se vise uma aprendizagem inventiva em vez de uma troca de informações ou acúmulo dessas; o docente pode, então, devir-mestre (KASTRUP, 2007).

Ao longo das investigações, tenho compreendido ainda que essa postura ética, a qual acredito que a performance pode fornecer pistas, ultrapassa a prática localizada da docência, dissolvendo a separação entre professor e o que sou quando não em exercício da docência. Ela convoca uma abertura à um movimento de desterritorialização afetiva, micropolítica (ROLNIK, 2018). Entendendo que há uma relação intrínseca entre formas e forças e que, operar uma mudança apenas nas formas, não necessariamente causa uma real transformação nas posturas éticas desenvolvidas a partir das relações em uma aula, no caso dessa pesquisa, em aulas de arte. Tenho sido convidado a pensar que não existe uma separabilidade no modo como agimos eticamente no mundo, não existem papeis a serem interpretados, mas sim, modos de produzir relações a partir de determinados princípios que não são eternos, nem únicos, mas sim localizados, ou seja, podem ser engendrados a partir das necessidades de cada situação.

Isso me fez questionar qual arte eu posso produzir no contexto de ensino-aprendizado que fissure o saber instituído sobre o que é arte e quais seus limites de linguagem. Inclusive por pensar na estrutura de nosso ensino básico, onde a maior parte das escolas públicas não oferece, mesmo que previsto em lei, o ensino separado de música, teatro, dança e artes visuais. Como, nesse caso, transformar a falta em potência? Se a performance é uma possibilidade de criação coletiva, acontecimento que desnaturaliza e tensiona o instituído, quais pistas conseguimos produzir para propor uma prática docente centrada em uma ética?

Os deslocamentos surgidos ao longo do semestre a respeito do pré-projeto, também foram fomentados pelo levantamento bibliográfico de produção discente – artigos e dissertações, além de algumas situações vivenciadas em minha prática docente. Consegui elencar, a partir do levantamento bibliográfico três grandes grupos que compõe o modo em que tem sido trabalhadas as relações entre performance e educação:

·         Performance como linguagem, o ensino de performance: estudos relacionados a como a performance é potente, enquanto linguagem a ser trabalhada, para desestabilizações do status quo da escola.

·         Performance como caminho para produção de aulas performáticas: aqui, a performance é utilizada não apenas como um conteúdo a ser trabalhado, mas como uma “estética” na elaboração de aulas que, assim como anteriormente dito, desestabilizam, evidenciam, fazem emergir alguma questão.

·         Performance como estudo do desempenho docente-discente: muito próximo dos estudos da performance, temos aqui o desempenho docente sendo investigado. Não quantitativamente, mas qualitativamente: como o corpo se porta em aula, o papel do corpo nesse desempenho.

Esses três focos de pesquisa mantêm, ainda, em separado a performance da educação. É uma relação lado-a-lado, membranas impermeáveis entre performance e educação. Acredito que a questão ética é uma maneira de tensionar essa relação, já que toca na questão do modo-de-ser, para além da instituição da linguagem ou da disciplina.

Outra questão que precisei repensar foi a metodologia escolhida. Durante a escrita do projeto, um processo cartográfico me parecia interessante – e ainda o creio – entretanto, pelo tempo de pesquisa e todas as atividades necessárias, acredito que não conseguiria dar cabo do processo me lançando em um terreno tão escorregadio. As demandas me fizeram perceber que movimentar todo escopo teórico que tenho encontrado, por exemplo, já me exigirá muito. Partir de um caminho cartográfico talvez não me seja efetivo nesse momento. No processo de levantamento bibliográfico, me deparei com a Etnografia escolar centrada na performance. Nesse sentido, agora a metodologia se estrutura da seguinte maneira:

·         Observação de aulas de artes de três professores/as da rede, período a ser definido até o fim do ano (como se organizam as relações em aula? Quais relações poder-saber se repetem, quais se diferenciam? Quais momentos de ruptura com a norma ou com o que é esperado?);

·         Questionário inicial com os/as professores/as participantes para compreender o que pensam sobre a prática docente de artes;

·         Entrevista semiestruturada ao final do período de observação, a partir do que foi observado;

·         Experimentação em minhas aulas para investigação das possíveis pistas;

             ·         Registro em diário de bordo do processo de observação e experimentação (dois diários:                         um do professor e um da turma).


1)     2)  Sumário provisório:

Apresento agora o esboço de sumário que tenho pensado para estruturar a materialização da dissertação.

INTRODUÇÃO (Trajetória de pesquisa, apresentação e delimitação do problema, metodologia e conteúdo geral de cada capítulo)

CAPÍTULO 1 (performance e educação, fricções e surgimento de um problema: a ética docente em arte – pedagogia crítico performativa)

CAPÍTULO 2 (performance e ética – perspectivas de conexão, reflexão e tensionamentos: de qual ética falo? Existe uma ética na/da performance? Quais relações? Qual importância para pensar a prática docente?)

CAPÍTULO 3 (pistas em performance para uma ética docente a partir do material empírico e experimental. Capítulo se divide em subcapítulos)

            3.1 Motivo de pistas e não um método/metodologia fechada e apresentação das pistas levantadas.

      3.2 Análise dos dados empíricos e experimentais a partir das pistas levantadas e quais os desdobramentos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS (Retomada de alguns pontos, análise a partir dos objetivos iniciais de pesquisa, prospecção da pesquisa).


1)     3) Questões em aberto, para reflexão:

·        *     Uma das questões em aberto diz respeito a como estaremos no próximo ano em relação as aulas presenciais. A pesquisa não se inviabiliza caso ainda estejamos em regime remoto, contudo o modo de análise e proposições de pesquisa se transformam. (Por exemplo: o como acompanhar as aulas, qual o foco do que será analisado, como se estruturará as questões para questionário);

·      *       Outra questão diz respeito ao sumário – que é uma forma de, também, pensar a pesquisa – é o como abordar as análises dos dados: uma parte dentro de um capítulo é suficiente ou é melhor abrir um novo capítulo apenas para análise?

·           * No pré-projeto propus a criação de um blog para compartilhamento e documentação do processo. Ainda é válido? Se sim, qual o melhor formato?

·        * Quais são as especificidades do que tenho chamado, até o momento, de éthos da performance? Ele realmente existe?

·      *  Quais critérios para entrar em contato com os professores/as de artes da rede? Chamada online? Qualquer professor/a pode participar? 


1)      4) Quadro de relação autoras(es)/conceitos – Pré-projeto e Atual


1)      5) Cronogramas (pré-projeto e atual):

Pré-projeto

Etapa

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·         Etapa 01: Cursar as disciplinas obrigatórias e optativas;

·         Etapa 02: Montagem, manutenção e fomento do site (memorial poético);

·         Etapa 03: Levantamento e leitura de referencial teórico;

·         Etapa 04: Organização e análise dos dados levantados;

·         Etapa 05: Escrita da dissertação;

·         Etapa 06: Qualificação da dissertação;

·         Etapa 07: Escrita da dissertação a partir das sugestões da banca;

·         Etapa 08: Participação em eventos acadêmicos e envio de artigos para publicação;

·         Etapa 09: Defesa da dissertação.

Atual:

Etapa

mês 1

Mês 2

Mês 3

Mês 4

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Mês 8

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Etapa

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·         Etapa 01: Cursar as disciplinas obrigatórias e optativas. No primeiro semestre cursei Metodologia de Pesquisa (4 créditos) e Tópicos Especiais em Processos Composicionais para cena (2 créditos). No próximo semestre pretendo cursar Seminários Avançados (4 créditos), Prática Docente (4 créditos) e mais uma matéria optativa para fechar os créditos finais (4 ou 2 créditos).

·   Etapa 02: Levantamento e leitura de referencial teórico e produção bibliográfica de dissertações e artigos sobre o tema;

·     Etapa 03: Levantamento de possíveis professores/professoras de artes para acompanhamento de aulas e produção de entrevista/questionário.

·         Etapa 04: Acompanhamento de aulas e produção de entrevista/questionário.

·         Etapa 05: Experimentações em aula.

·    Etapa 06: Escrita da introdução e do primeiro capítulo da dissertação para qualificação a partir do material teórico e empírico.

·         Etapa 07: Escrita de artigo para submissão (requisito para conclusão do mestrado);

·         Etapa 08: Qualificação da dissertação;

·       Etapa 09: Escrita da dissertação a partir das sugestões da banca e desdobramentos das experimentações e do material empírico produzido e analisado;

·         Etapa 10: Finalização da dissertação e organização dos preparativos

·         Etapa 11: Defesa da dissertação.

·         Etapa 12: Participação em eventos acadêmicos;

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