Trabalho final - Análise do Pré-Projeto (Jaqueline Silva)

 

UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ARTES CÊNICAS 

METODOLOGIAS DE PESQUISA EM ARTES CÊNICAS

PROFESSOR: MARCUS MOTA
DOUTORANDA: JAQUELINE BARBOSA PINTO SILVA

MATRÍCULA: 200085115 

PERÍODO: 1º/2020 

 

TRABALHO FINAL DE DISCIPLINA:

ANÁLISE DO PRÉ-PROJETO

 

Título: ARTIVISMO PERFORMÁTICO A PARTIR DA PANDEMIA: Aproximações entre estética e política no novo normal

Orientador: Rafael Litvin Villas Bôas

 Resumo: No contexto da Covid-19, diferentes ativismos foram performados, seja em apoio ou não aos governos, seja em apoio ou não aos mais desamparados por ele, e os elementos audiovisuais tiveram considerável relevância haja vista todas as socializações estarem sendo mediadas por telas. Podem ser citados projeções em prédios, manifestações por hologramas, ocupações de páginas de redes sociais, flashmobs com distanciamento e máscaras, entre outros. Interessa a esta pesquisa como a arte tem se mobilizado e mobilizado pessoas em torno das questões políticas e sociais que a pandemia colocou e ainda coloca. Considerando a crescente polarização e a dificuldade de o ativismo clássico de construir uma “percepção comum, seja a que nível for” (Comitê Invisível, 2016, p. 9), um “projeto político[1]” (Dagnino, 2002), Žižek (2012) aposta na rede ‘apolítica’ de relações sociais de produção ou, ao menos, em uma visão mais ampliada de política, que inclua os modos como as subjetividades se (re)produzem (Guatarri e Rolnik, 1986). Considerando também que estética e política estão em um mesmo sistema de evidências sensíveis que contém ao mesmo tempo a existência de um comum e das partes e os lugares que o formam, que determinam a maneira como esse comum se presta à participação e como uns e outros participam (Raciére, 2005, p. 15), a hipótese é de as artes possuem papel relevante para formação dessa percepção partilhada da situação e que a pandemia, contexto que coloca diferentes países e pessoas em uma mesma situação, pode ser um momento pertinente para analisar um novo modo de articulação entre maneiras de fazer, formas visibilidade dessas maneiras de fazer e modos de pensabilidade de suas relações (Rancière, 2005, p. 13). Nesse sentido, o trabalho se configura como uma tentativa de diálogo entre a teoria dos movimentos sociais e da criatividade política e a literatura sobre artivismo e performance.  

Objetivos: mapear e investigar o artivismo performático a partir da Covid-19, que se desdobram nos seguintes objetivos específicos:

1.       Revisitar referências teóricas e práticas artivistas performáticas no Brasil e em outros lugares de contextos históricos semelhantes (na teoria das mobilizações sociais) a partir do ano 2000;

2.       Mapear os artivismos performáticos a partir da pandemia e em razão dela, identificando os seus elementos constitutivos, composicionais e criativos, sobretudo em relação à dramaturgia;

3.       Pesquisar os impactos sociais, sanitários, econômicos, políticos e sensíveis dessas expressões, identificando os aspectos em que se aproximam e que se distanciam;

4.       Verificar se e como as manifestações virtuais reconfiguram as manifestações presenciais e performativas;

5.       Verificar se e como as manifestações virtuais reconfiguram a crise da representação e o conceito de performance nas acepções cênica e política;

6.       Experimentar, junto com artistas e ativistas, combinação de diferentes repertórios de fazer performance cênica e política, presenciais e virtuais, bem como os métodos que estabelecem conexão entre arte e política;

7.       Analisar as dramaturgias e narrativas originadas nesses encontros, por meio de entrevistas, grupos focais e outras formas de conversações.

 

1.    Questão bibliográfica - Impacto das novas ferramentas de busca e de análise de tese para pesquisa

 

Considerando que o tema aborda a pandemia, momento que todos de alguma forma influencia suas produções, notei que a leitura de artigos e teses recentes pode contribuir consideravelmente para o trabalho. Outrossim, trata-se de um fenômeno social recente e em andamento, de modo que quanto maior a quantidade de percepções sobre ele, mais sólida a análise. Algumas das revistas indicadas na disciplina, inclusive, propuseram edições específicas sobre o tema ou sobre a presença no mundo virtual, mediada por telas (e algoritmos dos programas ou das plataformas).

Não obstante, percebi a necessidade de localizar historicamente o artivismo, que tem tradições estéticas e políticas muito distintas a depender do contexto definido pelo tempo, pelo espaço e pelo tema (meio ambiente, representação política, anti-racismo, feminista, antifascista, neoliberais, entre outros). Logo, talvez esses três recortes se façam necessários para a qualificação ou alguma abordagem que perpassem todos ou alguns desses contextos.

Outro ponto de observação foi a dificuldade de encontrar performances no universo dos ativismos durante a pandemia. As manifestações artísticas se concentraram em expressões audiovisuais e os estudos sobre a presença têm sido mais trabalhados em espetáculos online e menos em intervenções “virtuais” ou cyber specific. Isso me faz refletir não apenas em ampliar as expressões artísticas a serem analisadas, mas também sobre o uso da autodenominação categoria performance

Por fim, observei que uma aproximação do artivismo com a propaganda política de agitação, categoria que deve ser incluída na análise, para a definição dos limites entre elas.

 

2.    Questão metodológica – Modo de fazer a pesquisa, interrogação do objeto

O plano inicial incluía utilização do Modo Operativo AND (MO_AND), método que emergiu de uma experimentação da junção entre a Etnografia como Performance Situada, estruturada pela antropóloga Fernanda Eugénio, e a Composição em Tempo Real, desenvolvida pelo coreógrafo João Fiadeiro. Em suma, consiste em um sistema de “ferramentas-conceitos e conceitos-ferramentas de aplicabilidade transversal à arte, à ciência e ao quotidiano para tomada de decisão, a gestão sustentável de relações e a criação de artefactos” (Eugénio e Fiadeiro, 2013, p. 222).

Para os autores, entrar em um plano comum teria como pressuposto a realização de um trabalho situado relacional, formatado em jogos, que suspenderiam o conhecimento a priori, limitante e impositivo da (cri)ação. Assim, “como não saber” ou “como não ter uma ideia” seriam perguntas importantes para ampliar as possibilidades de atuar no mundo estabelecendo um outro modo de operar, no qual sujeito e objeto, realidade interna e externa se fundem, e todas as ações, inclusive não humanas, configurariam situações em que, por meio do afeto, acidente e acidentados irrompem e se interrompem mutuamente.

Logo, além da revisão bibliográfica e da pesquisa documental acerca do artivismo e entrevistas com criadores e público, a metodologia consistiria na aplicação do MO_AND com grupos focais formados por artistas e ativistas, combinação de diferentes repertórios de performance cênica e política, presenciais e virtuais, como ocupações, instalações, intervenções, residências, videoconferências, lives, em torno dos problemas sociais trazidos pela pandemia. Também incluiria entrevistas.

Contudo, apesar das facilidades trazidas pela internet e as ferramentas de comunicação, o cansaço generalizado das telas e os limites dessa maneira de mediação e do corpo em reação a isso têm sido crescentes. Participo de grupos de estudos e experimentação do MO_AND, onde têm sido muito difícil a interação, os jogos e a presença. Embora essa análise tenha sido prevista, configura um dificultador da metodologia desenhada inicialmente.

Além das atividades estabelecidas para este semestre, incluí duas outras. Uma delas foi um estudo sobre uma performance, “JuntosESeparados” e a entrevista de diretora e público em uma de suas edições. Nessa oportunidade, pude entrevistar não apenas diretora como também o público, e percebi uma resistência deste à abordagem feita (formulário encaminhado por e-mail da Companhia). Acredito que as técnicas de mediação cultural podem ser inseridas na metodologia.

A outra atividade, dentro de pesquisa documental, foi análise de dois bancos de ativismos, um internacional e um nacional, para classificação das ações em artísiticas ou não.

Além disso, antecipei créditos; atrasei a revisão bibliográfica, ficando pendentes os fichamentos e a organização do material; participei de duas performances virtuais; fiz inscrição em dois curso, um sobre artivismo e outro sobre arte digital; e penso em me ligar a dois grupos de pesquisa, um sobre performance e outro sobre teatro político.

Tendo tudo isso em vista, minha sugestão de revisão do cronograma é:

 

Atividade:

2º/2020

1º/2021

2º/2021

1º/2022

1º/2022

1º/2023

2º/2023

1º/2024

Integralização dos créditos

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Revisão bibliográfica

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Pesquisa documental

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Curso sobre arte digital

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Curso sobre artivismo

 

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Participação no grupo de pesquisa sobre performance

 

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Participação no grupo de pesquisa sobre teatro político

 

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Mapeamento e recorte

 

 

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Elaboração do projeto de Tese

 

 

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Exame de Qualificação

 

 

 

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Entrevistas e grupos focais

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Experimentação

 

 

 

 

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X

 

 

Realização de estágio de docência

 

 

 

 

 

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Publicação de artigo e participação de evento

 

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Escrita da Tese

 

 

 

 

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Defesa da Tese

 

 

 

 

 

 

 

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3.     Inquietações

 

Além das dificuldades e possibilidades já mencionadas, uma das dificuldades no mestrado foi avaliar o impacto do ativismo. Nos enquadramentos epistemológicos da Ciência Política, embora se reconhecesse a importância dos processos subjetivos e da sensibilidade nas análises, não havia ferramentas ou categorias suficientes para perceber ou explicar esses elementos. Nas Artes, eles não são apenas importantes como essenciais e conduzem tanto produção quanto a própria pesquisa. No entanto, ainda me faltam ferramentas metodológicas cênicas para pensar esses elementos, ou uma reconfiguração sobre o conceito de impacto político ou sobre a pesquisa cênica. Ao mesmo tempo que é um desafio, é algo que me anima a buscar.

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CITADAS NO TRABALHO:

 

COMITÊ INVISÍVEL. Aos nossos amigos – crise e insurreição. São Paulo: n-1 edições, 2016.

DAGNINO, Evelina. Sociedade civil, espaços públicos e construção democrática no Brasil: limites e possibilidades. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

EUGENIO, Fernanda; e FIADEIRO, João. Jogo das perguntas: o modo operativo "AND" e o viver juntos sem ideias. Fractal, Rev. Psicol. [online]. 2013, vol.25, n.2, pp.221-246. ISSN 1984-0292.  http://dx.doi.org/10.1590/S1984-02922013000200002.

GUATTARI, F. & ROLNIK, S. Micropolítica. Cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes, 1986.  

RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Ed. 34, 2005.

ŽIŽEK, Slavoj. O violento silêncio de um novo começo. Trad. Fernando Marelino e Chrysantho Sholl. In: Vários autores. Occupy: movimentos de protestos que tomaram as ruas. São Paulo: Boitempo. Carta Maior, 2012.

 



[1] “Conjuntos de crenças, interesses, concepções de mundo, representações do que deve ser a vida em sociedade, que orienta a ação política dos diferentes sujeitos” (Dagnino, 2002, p. 282).

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