Relatório Reflexivo final - Elise Hirako


UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM ARTES CÊNICAS

Disciplina: Metodologia

Discente: Elise Hirako 20/0085247


 1.     Revisão projeto


Segue abaixo o diagrama que foi proposto no projeto.

Figura 1. Diagrama cartográfico geral do projeto.



 

Fonte: a autora.

Observando o diagrama cartográfico criado para direcionar e mapear a pesquisa, percebo que houve cumprimento dos caminhos propostos para o entendimento e construção dos materiais teóricos práticos. Após traçar a rota tomei decisões e abaixo segue reflexão sobre elas.

Decisão 1: Percebo que a utilização da metodologia cartográfica me oferece a liberdade de transitar, observar de forma ampliada,  para aprofundamento e direcionamento na questões centrais para o andamento do projeto. No entanto, confirmo que a disciplina ampliou meu entendimento sobre processos, percursos, procedimentos e sim, a metodologia pode ser múltipla. Cada metodologia trabalha com um método, que nos leva a novas demandas, e nos oferece novos resultados. Utilizar o procedimento da entrevista foi desafiador, e saliento que fiquei surpresa com as demandas pós-entrevista, em outras palavras, é muito mais complexo e trabalhoso do que aparentava ser.

 Acerca do estudo cartográfico tecnológico do movimento, confirmo que tem sido uma experiência satisfatória para observação de movimentações que se repetem em experimentações diferentes e tenho explorado relação mais atenta com a câmera, no sentido da saber que esta sendo registrado. Houve a necessidade de entender e estudar mais sobre posicionamentos e movimentação de câmera. Acrescento que há uma conscientização de que há algo esta sendo registrando, e este é o olho fixo das câmeras. Atento-me ao fato de que não poderia chama-lo de público, só se fosse um público de olhar sem a curiosidade para direcionar aquilo que ele quer ver.

Decisão 2: Acredito que o conceito de processo criativo unipessoal foi um ponto de partida para desenvolver  uma autonomia necessária para cumprimento dos procedimentos. No entanto, este conceito não abrange aquilo que estou fazendo na prática, pois, além da responsabilidade da direção, atuação e dramaturgia, estou desenvolvendo a sonoplastia, cenografia e edição das videoperformances. A situação de solidão esta sendo vivida no processo criativo, e surge o positivo desejo multifatorial de cada dia querer me isolar mais. Percebo ainda, que é um privilégio existencial necessário, se isolar para mergulhar na pesquisa.

Decisão 3:  não  pretende-se mais investigar a cultura japonesa de forma ampliada, mas sim, a dança butoh. Este corte será necessário para um desenvolvimento mais aprofundado. No entanto, estou certa de que me utilizarei de alguns aspectos do estudo da cultura japonesa para observar a dança butoh.  

Decisão 3.1: Inicialmente houve o rompimento do estudo comparado entre a dança butoh e a dança dos orixás. A razão desta mudança de percurso no processo investigativo se justifica pela questão temporal, em poucas palavras, não haveria tempo hábil necessário para desenvolvimento teórico e prático.

Decisão 3.2.: Acerca do estudo comparado entre a dança butoh e a dança expressionista alemã com foco em Mary Vigman, segue em andamento na pesquisa.


2.     Revisão pesquisa efetiva

     A pesquisa tomou novos rumos. Na tentativa de melhor compreensão apresento o sumário que estou construindo.


Estrutura Inicial Mutável do Sumário


1.     1. Apresentação

'    Quem sou e por que faço? (conceitos introdutórios: identidade híbrida, mestiça, millenium, performer intercultural, nipo-brasileira e  orienteXocidente)  (Schechner/Turner/Martin). Introduzir os conceitos principais de casa capítulo. 


2.     2. Solidão

2.1.Sob o ponto de vista filosófico/ sociológico (Bachelard/Heiddeger/Bauman/Focault)

2.2.Sob o meu ponto de vista

 

[PONTE pela solidão introduzindo para composição]

 

3.     Situação de solidão como território composicional


3.1.Implicações do tema central (solidão) para procedimento

3.2.Relação ser X tecnologia (sociológico/tecnovivial/hiperexposição/redes sociais).

3.2.1 ocidental (Brasil) X oriental (Japão)

3.2.1.1.como o povo brasileiro lida com a situação de solidão

3.2.2.2 como o povo japonês lida com a situação de solidão

[fundamentar argumentos através de reportagens que expõe comportamentos e fenômenos como hikikomori  (japoneses)]

 

[PONTE para Butoh]

 

4.     4. Butoh

4.1. Contextualização histórica sociológico/ politico/econômica que precederam a dança butoh

4.2. Capítulo para levantar Diálogos com Ohno, Hijikata, Maura Baiocchi, Min Tanaka.

4.3.Capitulo para falar sobre a relação da dança butoh com a dança expressionista (histórico/Mary Vigman) (apontar pontos em comum e falar sobre o momento histórico pós-guerra mundial)

4.4.Porque o que eu faço não é dança butoh?  [tecnoecoperformanceintercultural][pensamento em trânsito]

 

5.     5.PRÁTICA – Como eu faço isso? Construção da performance

5.1.1.     Tecnologia como parceiro de criação (pesquisar bibliografia) lista de apps/sites/programas etc. Lista de Rider técnico?

5.1.1.1.Como eu cartografo o movimento

5.2. Experimentos composicionais (fase de criação experimentação, costura dramatúrgica digital e performance final)


6.     6. Relatório memorial sobre a viagem para o Japão.


6.1 Roteiro

6.2. Como se virar no Japão com estratégias tecnológicas. 

6.3. Aqui preciso viver para continuar... quero observar de perto a cultura japonesa. 



7.     Anexos multimídia das  performances (audiovisual)

8.     Anexo 2 - Entrevista com Maura Baiocchi

9.     Referências bibliográficas


3.     Qualificação 


Durante o primeiro semestre delimitei o primeiro sumário mutável e estão em andamento, quase concluído, os seguintes capítulos:

3.1 A perspectiva histórica, política e econômica que precedeu a dança butoh. (Era Meiji e Era Showa, já lidas, compiladas e estou finalizando a escrita).

3.2. Reflexões acerca da prática da solidão no processo criativo. (em andamento)

3.3. Resultado de uma videoperformance. (estou concluindo a edição)

3.4.  Anexo 1: Entrevista com Maura Baiocchi. (está sendo revisada)


      4.   Bibliografia

            A disciplina me provocou no sentido de buscar o mais próximo da fonte possível.  Salvei nos meus favoritos todos os sites indicados e está sendo muito útil! Arigatou! Diante disso, surgiu a necessidade do aprimoramento vocabular para compreensão das leituras em inglês e o desejo de aprender a língua japonesa.

Foi necessário aprofundar sobre a perspectiva histórica para melhor compreensão do contexto do território político, econômico e social, que germinou a dança butoh.

               Acrescentei outros artigos, dissertações e teses que exploram o objeto em questão, e não um olhar ampliado. Percebi que estava “circulando” o objeto, mas não falava do objeto. O objeto de pesquisa é a dança butoh, mas a forma que eu absorvo, transmuto e crio, é uma performance intercultural. Sobre essa última afirmação ainda estou investigando.

Acerca da solidão não foi ainda ampliada sua bibliografia, mas colocada em prática ao desenvolver produtos artísticos, ao me isolar de forma expressiva do mundo virtual, considerando o nível de exposição no momento anterior a este. A situação de solidão me parece fundamental para conseguir focar naquilo que preciso fazer, que é estudar. Vejo o quanto é desgastante estar em contato com outras pessoas, pois todos têm suas próprias pulsões, desejos e medos. No entanto, não tenho o privilégio de estar isolada de forma plena, mas ser movida por essa tentativa tem trazido bons resultados, no sentido de pensar melhor, de me dar tempo, e tudo isso tem contribuído positivamente para o processo. A situação de solidão como “método”, era embasada por reflexões filosóficas, e para mim, é parte fundamental do trabalho. No entanto, acredito que a partir desta experiência, surge uma nova demanda bibliográfica, pensando sob uma perspectiva artística que ainda não foi levantada. Acredito que buscarei referências de artistas que desenvolvem suas obras em situação de solidão e autonomia.

Sobre essa questão, estou sendo coerente com aquilo que propus no projeto. Reafirmo que a situação de solidão nesta pesquisa como uma escolha poética para apropriação de si, para continuar questionando de forma propositiva: como o artista independente pode desenvolver um processo artístico na contemporaneidade? Entende-se que criar em situação de solidão é um ato de obstinação e gera autogestão, autonomia e descoberta de potencialidades dada à compreensão das múltiplas inteligências a serem contribuídas e desenvolvidas a partir deste contexto. O parceiro de criação neste processo composicional é a tecnologia, através de registros fotográficos e vídeos, com posicionamentos de câmera variados, para obter uma visão ampliada e simulada do olhar do diretor/público/espectador. Este olhar expande a percepção sobre a criação. Por que não usar esse desafio a nosso favor?

De fato, houve durante esse primeiro semestre algumas atribulações geradas partir desta decisão poética e metodológica. A escolha do processo criativo em situação de solidão com recursos tecnológicos para registro, observação e composição refere-se a uma maneira de estender o trabalho do ator como possibilidade criativa através do mundo interior, para assim cartografar o movimento e compor uma dramaturgia corporal híbrida. Por fim, vejo que minha pesquisa precisa de uma bibliografia que contemple a relação com audiovisual.

            Segue abaixo o diagrama da revisão bibliográfica apresentada no projeto:

Figura 2. Diagrama cartográfico da revisão da literatura para projeto. 


Fonte: a autora.

            Sinto que o levantamento bibliográfico é progressivo e infinito. Para mim, pesquisar é decidir caminhos e escolher. Escolher implica em recortar, e como isso foi difícil. Hoje, definido melhor o objeto e questões centrais da pesquisa, consigo traçar novos rumos e uma revisão bibliográfica mais direcionada para o objeto de pesquisa.  


5. Plano de Trabalho



 Este foi o meu plano de trabalho apresentado no projeto:









    O que está marcado com uma estrelinha amarela foi cumprido. Sobre a organização do diário de bordo, admito que neste ponto, o caos organizado reinou. Os registros das experimentações foram realizados, observados e decupados. Realizarei este árduo compromisso de organizar meus backups entre os semestres. Afinal, não quero iniciar o segundo semestre com essa demanda. Considerando que possivelmente serão três semestre em um ano, a viagem para o Japão ocorrerá no terceiro semestre, não no segundo. Aproveito para expor que essa compressão do calendário acadêmico esta gerando uma ansiedade, que até o momento, esta controlada. Mas, honestamente, sinto que isto não deve estar atormentando só a minha mente.


6. Considerações e inquietações finais

    A experiência de estudo remoto para mim foi satisfatória, apesar dos percalços. Percebo que me relaciono melhor com a tecnologia, do que com seres humanos, mas eu não sou a regra. E de fato, preciso melhorar como ser humano nesta segunda consideração.

    Sobre  a dinâmica e conteúdos transmitidos, me senti contemplada em muitos momentos. Para mim a interação social tecnovivial é mais confortável que a convivial. Da mesma forma, sinto que a  transposição do pensamento para escrita tem sido mais frutífero que a fala. Me esforcei para ser uma pessoa participava, ao invés de ficar só no "my little world", por querer fazer diferente da zona de conforto. Para para mim é muito difícil sair da bolha sem medo do julgamento.

    Apesar de todo o contexto, consegui cumprir as demandas que me propus nas disciplinas e avancei minha pesquisa. As que estão pendentes são: organizar meus registros e escrever sobre o laboratório de solidões compartilhadas que já foi lançado e segue em construção, criei um novo perfil na plataforma instagram @lab.sharedloneliness, mas não tive tempo suficiente para me debruçar, escrever e postar sobre esta experiência. Houve uma necessidade de desativar todas as minhas outras contas no instagram, reduzir minha interação com o mundo virtual e real, para conseguir me dedicar “embolhadamente” à pesquisa. O fenômeno “embolhamento” foi iniciado na monografia da graduação e sinto que hoje, ele faz muito sentido para meu processo de criação.

            Tenho uma demanda de leitura expressiva para o recesso e iniciarei com estes listados abaixo:

Artigos:

Shea A. Taylor, (2012),"Butoh: a bibliography of Japanese avant-garde dance", Collection Building, Vol. 31 Iss 1 pp. 15 – 18

Fraleigh, Sondra. "Consciousness Matters." Dance Research Journal 32.1 (2000): 54-62.

TAKAHASHI, Kazuko. Kazuo Ohno's Dance Training and Pedagogical Methods at Soshin Girls’ School, the Faculty of Education and Human Sciences, Yokohama National, Yokohama, Japan.

Dissertações

ABEL, Thiago. (Po)éticas do ctônico : primeiros movimentos do butô no Brasil / Thiago

Abel Martins da Silva. – Campinas, SP : [s.n.], 2017.

    Tenho muita dificuldade em definir o título e aceito sugestões. Afirmo que criar em situação de solidão tem sido uma experiência de resistência catártica, e assumir o do it yourself como ponto de partida tem me provocado reflexões existenciais, políticas e sociais, porque sei que estou tentando nadando contra a corrente do teatro de grupo, mas, essa pesquisa me parece fundamental, afinal, não me permito desistir, mesmo sozinha. Se por um lado, me sinto enfraquecida por não estar inserida dentro de um teatro de grupo, por outro, estou lutando para não morrer artisticamente e me render a subserviência e conformismo do mercado. Por vezes sinto excluída, mas não me permito ser silenciada, como uma carpa que nada contra a corrente para sobreviver e se tornar um dragão. Certamente há turbulências, pedras, mas minha determinação não me deixará desistir. Talvez eu não consiga, mas não irei desistir e se morrer, será de pé, e tentando. 

      Como  Irei para o Japão ano que vem, e junto com esta decisão prevejo tensões que estarão além do meu controle. Sinto que estou correndo contra o tempo como o coelho de Alice. Mas não, não me sabotarei, não me sabotarei, não me sabotarei.

 

             

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