Análise do pré-projeto de pesquisa – Cícero Félix de Sousa

 

Disciplina: Metodologia de Pesquisa em Artes Cênicas 2

Professor: Dr. Marcus Mota

Discente/doutorando: Cícero Félix de Sousa

 

 

Título provisório do pré-projeto: A espetacularidade no Altar do Menino Deus e Folia de Nossa Senhora do Livramento em Canápolis (BA)

Orientador: Dr. Jorge Graças Veloso

 

BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO

Tenho me debruçado sobre o corpus desse pré-projeto desde 2015, através do “Identidade Corrente”, projeto de iniciação científica que orientei até 2017 na Universidade Federal do Oeste da Bahia, campus de Santa Maria da Vitória, onde sou docente efetivo. O projeto resultou em um estudo etnográfico sobre as manifestações religiosas realizadas pelos povos do Território de Identidade da Bacia do Rio Corrente da região Oestwe. Este critério metodológico foi primordial para eu me decidir por duas manifestações das 13 identificadas, pesquisadas em quatro dos 11 municípios do território, como corpus desse pré-projeto de doutorado: o Altar do Menino Deus, de Dona Pulú, e a Folia de Nossa Senhora do Livramento, promovida por Seu Reinaldo, na comunidade rural de Jataí, município de Canápolis. Mas, foi o corpus metodológico, com base na Etnocenologia, etnociência das artes do corpo e do espetáculo, que me abriu as portas do doutorado no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, do Instituto de Artes da UnB. As duas manifestações, reconhecidamente objetos etnocenológicos adjetivamente espetaculares, eram realizadas por descendentes de índios e apresentavam predominância de um catolicismo não mais praticado pela Igreja Católica, a exemplo de rezas do devocionário colonial em latim.

 

QUESTÃO BIBLIOGRÁFICA

Passado quase todo o primeiro semestre do curso, com três disciplinas (tópicos especiais em Culturas e saberes em artes cênicas, Processos composicionais para a cena e Metodologias de pesquisa em artes cênicas), não há dúvidas que os dispositivos teóricos previstos inicialmente no pré-projeto acerca do objeto pesquisado foram expandidos. Autores como Augusto Boal, Anatol Rosenfeld, Erwin Piscator, Ileana Diéguez Caballero, Diana Taylor, Ricahrd Schechner, Hans-Thies Lehmann, Josette Féral, Guy Debord e Boaventura de Sousa Santos, entre outros, passaram a fazer parte do horizonte epistemológico na busca por respostas para o objetivo dessa pesquisa: como esses saberes sagracionais dialogavam com os saberes das artes cênicas.

A atividade de análise das teses realizada pela disciplina forneceu uma visão macro do resultado final e como organizar a bibliografia no conteúdo a partir da estruturação do sumário, mesmo sabendo que determinados autores podem se espalhar por várias partes da tese.

As ferramentas e formas de buscas na internet também enriqueceram o processo de construção bibliográfica, uma vez que ficou mais tangível traçar um panorama sobre as discussões já produzidas sobre o assunto e que caminhos foram tomados para responder aos objetivos..

Todas essas observações partem, naturalmente, desse primeiro contato com as disciplinas mencionadas. No transcorrer do processo outros autores podem surgir, inclusive fora do círculo epistemológico eurocêntrico. De qualquer forma, juntado os autores aqui citados aos já elencados no pré-projeto, creio que disponho de um corpus teórico já bem definidido para o início desse processo.

Destaco, ainda, algumas noções epistemológicas para pesquisas em etnocenologias que buscam suporte no corpus teórico: “alteridade, identidade, identificações, diversidade, pluralidade e reflexividade”, “teatralidade e espetacularidade”, “estados de corpo e estados de consciência” e “transculturação e matrizes estéticas” (BIÃO, 2007, p. 34 e 35).

Por fim, ressalto que a etnocenologia tem caráter transdisciplinar e se distingue do campo das ciências do homem e da antropologia do teatro por valorizar princípios característicos de cada manifestação, em reconhecimento a alteridade, ao locus social específico daquele lugar de fala, como define Djamila Ribeiro (2017), às narrativas históricas, às memórias afetivas, estéticas e sensoriais, às tradições orais que reafirmam posturas identitárias.

 

QUESTÃO METODOLÓGICA

Considerando que esse pré-projeto já parte da experiência de uma pesquisa já realizada, alguns critérios metodológicas foram exportados. O primeiro deles trata da iniciativa e realização da manifestação e, o segundo, da forma como registrar e interrogar o objeto pesquisado. Outro, foi a delimitação do território. Assim, podemos descrever as seguintes características das duas manifestações:

a)      Quem faz - São realizadas exclusivamente pelos povos, sem nenhuma participação da igreja católica;

b)    Onde - São realizadas no Território de Identidade da Bacia do Rio Corrente, no Oeste da Bahia, na comunidade rural de Jataí, município de Canápolis;

c)     Quando – Altar do Menino Deus: 23 de dezembro a 6 de janeiro. Folia de Nossa Senhora do Livramento: 31 de janeiro a 2 de fevereiro.

d)     Registros/quando - As duas manifestações já foram registradas em audiovisual entre 2015 e 2017;

e)  Entrevistas/personagens - Os realizadores Dona Pulú (rezadeira e benzedeira) e Seu Reinaldo (alferes do estandarte e dono da promessa), o rezador Zé de Teodósio (foi professor leigo e é sempre convidado para rezar nas comunidades), o líder do grupo de chula Júlio Cainãna (tocam em várias manifestações religiosas) e Malvina (filha de Dona Pulú e herdeira da tradição que vem da bisavó).

Mais duas características em comum às duas manifestações merecem destaque:

a)     Descendência dos rezadores - Dona Pulú e Zé de Teodósio são descendentes de indígenas;

b)   As rezas – Apesar de os dois rituais serem bastante distintos, algumas rezas se repetem nas duas manifestações, como a Ladainha de Nossa Senhora em latim.

c)     Oralidade – Zé de Teodósio e Dona Pulú só sabem rezar a ladainha em latim de memória.

Como metodologia pretendo entrevistar os personagens já entrevistados pelo menos mais uma vez, bem como fazer o registro em audiovisual dos rituais assim que possível. Os momentos posteriores, de análise sobre todo esse material coletado, imagens e falas, são sempre momentos de ricas descobertas. Essa segunda coleta de dados abre oportunidade para uma nova observação e análise comparativa.

Embora a disciplina de Metodologia tenha aberto inúmeras possibilidades de desenvolvimento da pesquisa, quero destacar a grande contribuição que ela deu para melhor compreender o espaço histórico e geográfico onde as duas manifestações estão inseridas. Inicialmente, estava preocupado em fazer a trajetória histórica da colonização para identificar os resquícios do devocionário colonial e entender como eles foram herdados por esse povo do território. Esse era, a meu ver, o fluxo natural. Agora, estabeleci outra metodologia: dividi o tempo em dois espaços e começo a analisar das pontas para o centro: de 1534 (data que teoricamente marca o inicio da exploração colonial do Rio São Francisco) até 1960 (inauguração de Brasília, que representou um período de grande transformação social na região central do Brasil e início de uma nova colonização na região) e de 2017 (ano em que pequenos agricultores de Correntina, em um momento de fúria e protesto, destroem o sistema de irrigação de uma fazenda do agronegócio que estava afetando os rios da região) até 1960. A partir dessa perspectiva metodológica, compreendi melhor o contexto de colonização e neocolonização onde estavam inseridas as duas manifestações religiosas. 

 

INQUIETAÇÕES

Minha trajetória acadêmica começa em Comunicação Social com habilitação em jornalismo impresso, continua com análise do discurso em Letras e agora chega às artes cênicas. Esse caminho, em si, já me parece uma inquietação. E a inquietação, para mim, é um combustível para me lançar ao desafio. E o principal desafio nesse momento é encontrar respostas para o objetivo desse pré-projeto, embora a bibliografia e leitura de outras teses já sinalizem algumas direções.

Outras questões, a exemplo da estrutura, ainda precisam ser resolvidas. Já está claro que tenho vários elementos: relação do pesquisador com o assunto, contexto histórico e espaço territorial, descrição dos rituais e análises, relação do objeto com as artes cênicas a partir da etnocenologia e considerações finais. Mas, quero organizar a partir de uma solução criativa, com uma narrativa que encadeie o conteúdo de forma harmônica.

O título deverá ser revisto, ou, talvez, até o ângulo de olhar o objeto. Assuntos que ainda não amadureci com meu orientador.

Como todo material será registrado em audiovisual com uma linguagem própria, poética, já pensei na possibilidade de integrar ao projeto dois filmes documentários sobre as duas manifestações.

De modo geral, essas são as principais inquietações que, juntada às observações anteriores levantadas sobre o pré-projeto, consegui expor aqui agora. A contribuição dessa disciplina foi fundamental para que eu enxergasse um horizonte metodológico além das perspectivas iniciais. Muitas mudanças ainda podem e devem acontecer nesse percurso. É arregaçar as mangas e mãos à obra.

 

REFERÊNCIAS

BIÃO, Armindo (Org.). Artes do corpo e do espetáculo: questões de etnocenologia. Salvador (BA): P&A Editora, 2007.

RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? Belo Horizonte (MG): Letramento, 2017.

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