Exercício II – ENTREVISTA - Maicom Souza e Silva
Exercício II – ENTREVISTA
Maicom Souza e Silva
PPG – Metafísica
Metodologia de Pesquisa
COLETAS DE DADOS
Entrevistada: Thaís Souto Amorim, Coordenadora do Museu Capixaba do Negro “Verônica da Pas” - Mucane.
Entrevistador:
Maicom Souza e Silva.
Data: 18/10/2020.
Local: Mucane, Av. República, 121, Centro,
Vitória/ES. CEP. 29.010-030
Link:
https://youtu.be/5hI9rNAM_7A
INÍCIO
Maicom Souza: Hoje, dia 19 de outubro de 2020 eu Maicom Souza e Silva aluno do Programa de Pós-graduação em Metafísica da Universidade Federal de Brasília, inicio a primeira entrevista do projeto de pesquisa intitulado Epistemologia do Corpo Negro.
Nós temos aqui a coordenadora do Museu
Capixaba do Negro “Verônica da Pas”, Thaís Souto Amorim. Quero agradecer a Thaís
por ter aceito o convite de participar deste nosso projeto de pesquisa, do pré-projeto
de mestrado e por ter concordado em participar desta disciplina chamada a Metodologia
de Pesquisa. Thais, eu gostaria que você se apresentasse brevemente e depois eu
inicio fazendo as perguntas.
Thais Souto: Bem, boa tarde! Meu nome é Thais Souto
Amorim, eu sou servidora da Prefeitura Municipal de Vitória desde 2013 e estou
aqui como coordenadora do MUCANE desde 2017. Eu sou aluna de Serviço Social na
Universidade Federal do Espírito Santo e participo também de um grupo de
pesquisa que pesquisa violências e minorias, lidas as minorias sociais. E,
vamos lá!
Pergunta 1. Qual a ideia central do Mucane?
Thais Souto: A ideia central deste espaço é a manutenção
e difusão da cultura afro-brasileira, se a gente for falar de uma forma muito
básica, mas é importante pensar também que a gente vem de um processo de
ocupação desse espaço físico, então, isso não nos foi dado - como tudo
relacionado a políticas públicas para a população negra e direito da população
negra, aqui no Espírito Santo não seria diferente.
Então, a ideia central nesse espaço é a
manutenção e difusão da cultura, inicialmente, a gente fala de um museu, que é
um museu, mas que tem um grande arcabouço e é lido também como um espaço
cultural em virtude das oficinas, do curso de qualificação e outras atividades,
mas nós recebemos aqui todo e qualquer diálogo, não necessariamente no ponto da
cultura, mas que seja sobre a população negra e que tenha centralidade nessa
temática.
A gente costuma falar que essas pessoas nos
procuram para fazer uma atividade que tenha um recorte de raça, em algum momento
essa atividade vai falar sobre a população negra, não é nossa, não é nosso
campo de trabalho inicial, mas se a gente puder colaborar ou receber uma outra
atividade a gente faz, mas a nossa prioridade é que aqui dentro as pessoas
possam pensar as políticas, debater o que funciona, inclusive esse espaço, que
é um espaço público como espaço público está dentro de uma estrutura que é o
centro da sua organização.
Não podemos fugir disso, existe um ponto de
vista que é institucional, então a gente vai ler também o racismo institucional,
a gente precisa estar sempre atento para ver se estamos mesmo cumprindo o nosso
papel institucional. Então, todo e qualquer assunto, atividade, que fale da
população negra.
Esse espaço foi construído, então ele foi
ocupado, inicialmente pelo movimento social e não apenas pelo movimento negro,
mas ele foi construído ele é mantido para que a gente possa falar das nossas
questões. E falar é também se colocar através das linguagens culturais, da
nossa corporeidade, então, esse espaço ele é forjado para isso, e é aquilo que eu
sempre comento. Que ele, que o objetivo do MUCANE, não é concentrar toda a
criação, tudo que a cultura tem aqui, tudo que as pessoas negras produzem, a
gente não pode fazer desse lugar o único lugar que a gente está apresente, onde
os nossos projetos são aprovado né, onde nossas obras são colocadas para as
pessoas olharem, não é isso, mas a gente é como um quilombo. Assim, aqui é um
lugar de pensar, é um lugar de talvez fazer um teste de uma atividade, mas é
importante que nós estejamos em todos os lugares.
É importante a gente pensar que aqui hoje no
Estado do Espirito Santo nós somos 57,6% da população, na última pesquisa do
ano passado, antes do Covid né. Então, é importante pontuar que nós temos
outros processos de violências que nós estamos passando agora, mas essa era a
porcentagem da população negra e aí se a gente parar para observar, onde nós
estamos? Isso é territorialmente, temos que pensar como estamos dentro das cidades
como um todo, mas como a gente está aqui nesse território? Nos territórios o
Espírito Santo, quais são os corpos que estão encarcerados né?
Não há nenhum demérito em ser serviços
gerais, vigilante, a gente tem a nossa equipe aqui, que é super querida, mas
porque nós estamos sempre nesses lugares? Ou estamos sempre buscando ocupar um outro
lugar, mas ele vai estar muitas vezes voltado apenas para esse debate, da
questão racial. Pessoas negras são cientistas, elas vão ser políticas, são
filósofos, são professores, artistas, então é importante a gente pensar que esse
é o processo histórico deste país, nós somos a maioria população, mas nós não
estamos nas maiorias lidas como positivas.
Por exemplo, temos sempre nos índices de
violência, nos índices de agressão, as mulheres negras. Enquanto os índices de
violência contra as mulheres brancas reduz, obviamente de uma forma muito sutil
ainda nesse país, o índice de violência e homicídio das mulheres negras cresce
muito, muito rápido, então a gente precisa pensar sobre isso, esse país foi constituído
junto com a escravidão, a gente não consegue falar de Brasil sem falar do
processo de escravização da população negra. Sequestrada de África e também o
povo originário desse país.
Então, não existe Brasil sem violação de um corpo
negro, não existe, e aí gente precisa pensar. Quando a gente fala de cotas,
quando a gente fala de um espaço como o MUCANE e quando a gente fala de uma
gerência de direitos da população negra, políticas de equidade racial, que
igualdade, nesse contexto histórico, nós não vamos alcançar. Mas minimamente
equidade, a gente fala uma reparação histórica, então políticas públicas elas
estão muito aquém ainda historicamente do que nós pensamos enquanto militância,
enquanto grupo organizado que somos e muito organizados, parece somos desorganizados,
mas nós não somos, nada nos foi dado. Quantas revoltas existiram? Essa leitura
de que o povo o negro ficou esperando que era um povo pacífico passivo, sempre aguardando
uma coisa da população branca.
Então não né, as políticas públicas elas são
resultado da luta do movimento social. A gente, os militantes mais antigos que
estão aqui com gente, as vezes a gente dá aquela reclamada, fala, “ah, mas é
tanto retrocesso a gente não tá vendo, não tá vendo”. Sim, temos um retrocesso,
mas a gente andou uma quantidade, se pensarmos nas políticas de cotas, a
primeira gestão deste país que pensou fazer uma pauta de igualdade racial foi
em 2003, então isso é muito recente, mas a militância está aqui desde sempre.
Então, pensar a política pública é pensar que
o estado está fazendo minimamente seu papel, então por isso que essa política
também precisa ser transversal, ela precisa está no campo da cultura, mas ela
precisa estar na saúde. Para pensarmos este corpo - sua pesquisa vai falar
disso o tempo inteiro -, por exemplo, a população negra tem índices calciforme mais
elevados, sabemos que isso vai impactar também, quando a gente fala corpo,
porque que essas meninas negras muitas vezes não estão ou quando estão, tem
outra percepção corporal do balé por exemplo, estão a gente precisa pensar
sobre essas particularidade. Outra questão, a violência obstétrica, que as
mulheres negras são lidas como fortes, então você aguenta, mesmo que esse corpo
não esteja suportando mais, isso também violência no campo da saúde.
Pensar também no campo da economia da
flexibilização do trabalho para as pessoas negras. Quem são as pessoas que
estão trabalhando por jornada? A gente está chegando perto do fim do ano e se fala muito do décimo terceiro que as
pessoas vão receber proporcional, as pessoas tiverem redução de carga horária,
essas pessoas têm cor, não que não existam pessoas brancas que sejam pobres e que
também estejam nessas condições. Nós não estamos retirando isso, mas a gente precisa
entender que acentuadamente a população negra está neste lugar de
vulnerabilidade.
Também podemos falar sobre a vulnerabilidade
da violência policial, por exemplo, a população em situação de rua, aqui no
entorno onde a gente está, estamos no centro de uma capital, não diferente de
outros centros capitais e muito mais movimentado durante o dia, quando tem o
comércio, então vai dando o final da noite a gente começa a ver a população em
situação de rua já é nesse ambiente, que são nossos vizinhos, que estão em
torno. Então, a gente percebe que essa população também tem cor.
O processo de enlouquecimento mental também
tem cor, de adoecimento mental tem cor - se a gente for no CAPES - se pesquisarmos o início da intervenção ultra
medicamentosa que historicamente tem se transformado, mas se a gente parar para
pensar quem estava internado em nestes hospitais, que se faziam essas pesquisas,
essas experiências eram com pessoas negras, então o quantitativo de
vulnerabilidade que nós temos enquanto população é porque nós fomos constituído como um não povo deste país.
As políticas de extermínio entenderam, em um
certo ponto da história, que com 100
anos não teria mais de uma pessoa negra, porque isso era um projeto de país e
continua sendo, hoje também é um projeto desse país nos exterminar, mas nós
estamos em outros ambientes né, na universidade. E aí o conhecimento, eu tenho
certeza que várias outras pessoas já quiseram pesquisar e que já pesquisaram
talvez sobre este ponto de partida, mas há também um apagamento intelectual das
nossas questões.
Deveriam
existir políticas específicas em todos os campos do poder público, não é o que
acontece, então acaba que as gerências de equidade racial, concentram uma série
de atividades de direitos humanos. Assistência as vezes de suporte para a área
de educação, a Secretaria de Educação, geralmente as secretarias por uma
questão de legalidade elas precisam ter um setor que trabalhe a aplicabilidade
da legislação que fala sobre as questões raciais no Brasil, mas como isso é
feito também? É só no início de novembro? Existe um programa ampliado para que
as crianças para que as pessoas se reconheçam esta população? Estão assim, é
assunto para muito complexo.
Cada linha eu falei existem vários teóricos
aí debatendo sobre isso, no campo do direito por exemplo, também porque aqui
existe um quantitativo de advogados muito grande mas não existe esse mesmo
quantitativo de juízes, promotores, se a gente olha para o tribunal de justiça,
se a gente olhar para quem a gente está elegendo também, quem está construindo às leis desse país, então há uma ausência de representatividade,
a política pública ela é fundamental para a população como um todo, é
obrigatoriedade do Estado prover minimamente o que está na Constituição.
É
importante também que as políticas públicas de ação afirmativa sejam lidas com
esse parâmetro de reparação histórica mesmo que elas precisam ser lidas como
mais amplas. Além da política de cotas, a gente foca muito na política de cotas,
mas aqui em Vitória têm um programa por exemplo que trabalha para que as
pessoas tenham auxílio para plantar em casa uma série de folhas, então foi
pensado por uma médica negra porque ela sabe que essas pessoas sentiam muita
dor, muitas anemias, que elas têm essa população negra que nem sempre poderiam ficar indo ao posto, então, ela fez essa
interlocução. Ela fez isso né, esse programa que é de chás, então ela vai na
tua casa te ajuda plantar lá, isso é muito ancestral e é uma política pública
que está instituída nesse município.
Acho que temos que pensar, mesmo que a tenhamos
um caminho longo pela frente, para alcançar outras frentes políticas públicas
em um caminho para a manutenção do mínimo, que a gente já tem nesse momento
histórico que a gente vive.
Pergunta 3. O curso de qualificação se encontra como uma ação de políticas públicas para a população negra?
Está dentro de uma politica instituída, o
museu também já é uma política pública para além de um espaço físico, a gente
consegue transcender um pouco isso quando a gente trás, recebe outras frentes,
conselhos, OAB, ministério público, quando a gente recebe universidades, quando
a gente faz interlocução com outras esferas, mesmo que a gente entende que isso,
que a gente não vai fazer nada sozinho.
Então além de ser um espaço apenas, não
apenas isso, mas além de ser um espaço físico a gente consegue ser um espaço de
interlocução com outras políticas com outros espaços né, então acho que o curso
de qualificação ele, assim como outras atividades de dança, vão falar desta
corporeidade e ele tem também uma construção histórica, ele não é uma oficina,
as oficinas também são maravilhosas, mas ele tem uma profundidade, até no que
ele deve, não acho que nós chegamos lá ainda, mas acho que teoricamente.
O que é esse corpo? Não é dançar pelo dançar,
existe ali um firmamento que sai de algum lugar, que é até teórico, mas é de vivência,
mas é também religioso, passar pela nossa religiosidade sem dúvida nenhuma, então,
acredito que ele inclusive faz interlocução sobre outras esferas.
Para dançar é necessário ter saúde, estão a agente
vai falar disso né, nas matérias de anatomia e outras matérias, que vão tratar
minimamente de cuidar desse corpo, porque a gente agora na época do Covid. O
que é cuidar de você, é fazer skincare , mas assim, é a gente se alongar,
sabe, é a gente comer bem, a gente se
olhar e eu acho que isso também são coisas que, até na última turma a gente né,
reparou bem porque os corpos das pessoas eram muito discrepantes, isso acabava
impactando para alguns trabalhos. E aí é entender também né, que olhar? Como
isso é delicado né, trabalhar essa corporeidade, querer que seja todo mundo
igual, fazer uma coisa ali dentro de um super padrão, mas isso é nosso teoricamente?
Não digo emocionalmente ou moralmente falando,
que mesmo que fosse nosso oralmente já seria para nós teórico, mas assim vamos
estabelecer uma coreografia e tal, e a gente percebia que essas corporeidades elas
tinham densidades, tem idade, tem histórico, tem tudo isso, então acho que super
cumpre sim um papel fundamental inclusive de entender esse museu como política
e estar pronto para que ele cresça. A gente está dentro desse debate, esse
curso vai se transformar em um curso técnico? Essa política pública tem
estrutura para isso? Aonde a gente tem que ir para fazer isso né? Isso, a gente
consegue manter essa formação aqui, se formos técnico? Então, ele inclusive nos
coloca neste lugar da gente pensar, se a gente estar realmente cumprindo nosso
papel no caminho, que é isso mesmo ou não, se a gente estar deixando a desejar
ou precisa melhorar em alguma coisa.
Pergunta 4. Em qual ano o Curso de Qualificação foi fundado?
Maicom Souza: Então foram três turmas?
Thais Souto: Três turmas
Maicom Souza: Você sabe mais ou menos quantos concluintes nós
temos?
Thais Souto: Então, dois na primeira turma, dois na
segunda e oito na última, se formou em dezembro do ano passado.
Pergunta 4. Como foi pensada a ementa do curso de qualificação?
A ementa inicial desse curso, o curso foi
idealizado pelo professor e bailarino Renato Santos né, então com certeza vai
aparecer muitíssimo nessa pesquisa. Então, essa semente inicial foi projetada
por ele, foi coordenador de dança da Prefeitura e aí construiu esse curso. Em janeiro desse ano teve uma reformulação, que
o Maicom inclusive que está me entrevistando participou por ser professor
interessado também melhorando um pouco isso.
Até Renato entendeu que tinham coisas ali que
estavam obsoletas algumas bibliografias e aí ele fez esse curso, ele deixou
esse material para nós inclusive ele foi incorporado no acervo da biblioteca do
museu e incorporado também ao curso.
Esse ano nós não tivemos turmas práticas,
porquê? Foi na semana em que o espaço foi fechado por conta que houve um
decreto do Covid19. Nós até reunimos
aqui os professores e pedagógico com Ariane Meireles, que também provavelmente
vai aparecer muitíssimo nessa pesquisa, que é da educação, ela é da Secretaria
Municipal de Educação e da Comissão de Estudos Afro-brasileiros. Para falar um
pouquinho como que estava a educação e o que ela achava também disso né, e não
tem como a gente fazer uma inserção desse curso sem ter prova prática, que a
prova não é só vir aqui e fazer o procedimento prático, é uma tarde de vivência
com os professores.
Renato sempre participa Ariane também, então são
pedras fundamentais da dança afro aqui do Estado, então a gente entendeu que
não teria como fazer, também a transferência desse conhecimento até avaliamos,
vamos transferir apenas conhecimentos teóricos, mas sem conhecer esses corpos.
A gente está muito relacionado ao que é nosso,
assim, a gente não sabe que ginga é essa de onde essa pessoa vem? O que ela
traz? Sem essa rotina de olhar para esse corpo, para esses alunos. Visualizados
a turma e a gente entendeu que tecnicamente não seria possível, então, a gente
não teve prova prática esse ano, nem turma, então a gente vai esperar os
próximos protocolos de segurança para que a gente entenda como que vai ser.
Mas como eu havia falado, essa recapitulação
assim, essa pequena renovação que Renato deu no MEC. Para relembrar também que
ele não dá aulas aqui, mas ele está sempre acompanhando, então isso também já
estava incluso nos módulos que a gente daria aula então os professores também
tiveram que se reinventar um pouco tanto o Maicom quanto o Mauro junto com
nosso pedagogo estavam avaliando isso com que eles iriam incluir o que Renato
deu nesse curso de janeiro para os módulos que iriam começar para a turma nova,
então, com certeza vai ter na próxima turma coisas muito diferentes que os
alunos que já passaram por aqui não viram ou viram em uma outra pegada, mas por
enquanto então a gente vai aguardar a inserção de novas turmas para que a gente
possa caminhar com essa renovação do curso. Não na mudança dele estrutural, logicamente
que não, mas a melhoria dele e a gente continua nesse debate aí da
transformação deste curso de qualificação em curso técnico de dança afro
Maicom
Souza: Thais,
obrigado por essa aproximação do curso de qualificação.

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