Entrevista com Tascio Andrade [Exercício discente Marcos Buiati]

 TRANSCRIÇÃO ENTREVISTA TÁSCIO ANDRADE

Dançarino, participante do processo de criação do espetáculo “O Fio de Minos” (2019)

Realizada em: sábado, 10/outubro, às 10h, via plataforma Google Meet.

Link para a gravação da entrevista: https://youtu.be/W3k-jW-akf0


MARCOS: Procedimentos de pesquisa….

TASCIO: (incompreensível)


MARCOS: Hã?

TASCIO: O Marcos Buiati dance Company agora tem que deixar a metodologia de trabalho para a companhia.


M: Menino, mil revelações, sobre metodologia, porque, eu já estudei muito… eu já… eu já… eu já estudei muito metodologia, já fiz um mestrado, apanhei muito de metodologia no mestrado inclusive, porque no meu mestrado não tinha uma componente de Metodologia como é esse programa aqui.

T: Nossa.


M: A gente tinha uma disciplina que era teórica… teorias e práticas da performance e que ali um pouco a gente falava um pouco de metodologia e depois os seminários que aí era meio que seminários sobre os projetos mesmo. Aqui não. Tem uma disciplina de metodologia pro mestrado e uma disciplina de metodologia para o doutorado em artes cênicas então assim está sendo muito legal por que é a primeira vez que eu estou estudando metodologia de pesquisa para artes cênicas mesmo assim né de maneira mais formal né porque...

T: Falando nisso, o doutorado você fez o que é dentro da cênicas?


M: É em artes cênicas.

T: Ah esse é dentro de cênicas agora?


M: É… o programa…

T: O mestrado você tinha feito dentro da antropologia não foi?


M: O mestrado foi em performances culturais mas na minha pesquisa eu fui muito para antropologia e para a filosofia né. Então lá eu estudei muito metodologia de pesquisa das Ciências Sociais na verdade.

T: Então é isso que eu fiquei…


M: Né é enfim usei muito a questão até da etnografia, por conta da antropologia na pesquisa e metodologias das performances culturais mesmo né? E aí agora é… eu tô nessa disciplina a gente tá, eu tô estudando mesmo metodologia de pesquisa para artes cênicas e aí tô contrapondo muitas coisas né porque eu tenho… é... muita experiência da praxis né de anos criando e anos fazendo coisas. Então não é que eu nunca ouvi falar de metodologia mas era uma coisa, em artes cênicas, mas era uma coisa muito mais instintiva e a partir da criação da praxis, da tentativa e erro, do que algo mais formalizado entendeu? 

T: Uhum.


M: Em termos metodológicos. E aí um dos trabalhos que o... que o professor pediu para gente fazer é essa questão da entrevista como exercício assim, na verdade nem tinha que ter a ver com necessariamente com pesquisa, com recorte de cada um, ele falou olha todo mundo vai passar por esse exercício que é essa ferramenta metodológica da entrevista que não é uma ferramenta exclusivamente das artes cênicas né, diversas outras áreas usam… é... Aí ele falou se alguém quiser e conseguir trazer pro repertório da própria pesquisa melhor. Senão também tubo bem pode ser qualquer tema qualquer outra coisa. E aí o que eu tava te falando o projeto, ele não é… o objeto do projeto não é especificamente “O Fio de Minos” mas o projeto parte do “Fio de Minos” e parte da… é... dessa investigação desses 3 anos né antes de chegar no “Fio de Minos” a gente fez muitas outras coisas né.

T: Sim.


M: Porque parte do projeto também tem a ver com a questão do treinamento tem a ver com os Fundamentos Bartenieff, então tudo que a gente fez desde 2017 de certa forma construiu a argumentação do projeto percebe?

T: Aham, sim uma coisa para mim por exemplo que fica muito desse tempo sempre foi essa... a construção desse corpo cênico que você sempre falou.


M: O projeto é sobre isso digamos em alguma medida.

T: Ha entendi.


M: Por quê... Tanto é que eu até falo muito no projeto sobre corpo cênico, sobre dramaturgia do corpo né? E como... e aí é isso a questão do corpo monstro nessa questão do monstro como catalisador de construção de corpo cênico né? Como ali esse estilingue esse gatilho né? Por isso que eu até comentei com a questão do Dante foi ficando bem distante assim e em certa medida a literatura também mas a literatura ainda está presente por quê uma das imagens de referência para essa ideia do monstro é por exemplo a presença do monstro no texto literário. Como foi o caso do “Fio de Minos”. É… mas eu trago no projeto também outras questões sobre essa referência monstruosa aí eu vou trazer questões da teoria da Cultura, questões da Antropologia. Foram estudos que eu fui aprofundando no último ano também depois que a gente finalizou o espetáculo e principalmente algo que vem me interessando muito também, processos de subjetivação né, então eu tenho ido muito para questão da Psicologia também, da psicanálise um pouco, nessa relação com o movimento. Mas aproveitando que você falou da coisa do monstro acho que de repente você podia começar falando um pouquinho sobre isso assim. Como que você vê isso nesse processo de 3 anos como que você vê essa questão do monstro no processo da sua vivência.

T: Uhum.


M: É... Nesses diferentes momentos né? Que como a gente já falou, foram diferentes recortes, focus, pessoas né? Entradas e saídas.

T: Sim.


M: Um dos meus tópicos é: sobre o monstro né assim. Porque aí, só antes de passar a palavra oficialmente, é porque um dos motivos também que eu pensei em usar esta entrevista apesar do projeto daqui para frente não ser em relação a... a esse momento prévio, é porque muitas das hipóteses de pesquisa que eu coloco lá... Aquele… aquele... estruturação né... tipo ah, qual que é o problema quais são as hipóteses né né?

T: Sim.


M: Muitas dessas hipóteses vieram dessas experiências. Então olha, eu acho que acontecia tal coisa. Eu suponho... hó tem uma pista ali que eu acho que rolou porque eu percebia isso nos meninos mas assim eu nunca conversei sobre isso com vocês diretamente nesse âmbito mais metodológico mesmo percebe?

T: Uhum.


M: Então assim, é um pouco nesse sentido de trazer um pouco a visão de vocês sobre essas hipóteses. Eu não vou falar os hipóteses que eu coloquei lá, quero ver se elas se afirmam ou não percebe? Porque...

T: Sim sim.


M: ...é um pouco a partir delas que eu vou continuar pesquisa daqui para frente.

T: Entendi. Não agora no começo da sua fala, por exemplo, me remeteu muito ao... aquele texto... o… a escrita do Médico e o Monstro? Me lembrou um pouco, você falando agora sobre essa transformação e dessa mudança e dessa questão da psique… lembrou…


M: Uhum.

T: Esse tex… esse livro… que é uma história que vai muito de encontro a isso dessa mutação desse corpo e desse li... dessa, desse caminho que esse monstro se permeia com a própria pessoa e como essas duas personalidades passam a muitas vezes serem uma e essa uma que muitas vezes nem se entende como próprio, próprio ser.


M: Uhum.

T: … fica nessa dicotomia entre ser os dois. E aí...


M: Mas você… você acha…. você lembrou desse livro, mas cê acha que isso aconteceu em algum momento nesses três anos?

T: Sim…


M: Nas nossas…

T: Sim mas eu eu vejo que por exemplo é de uma forma um pouco... o caminho que a gente chegou nesse lugar desse hibridismo, porque no... no livro é po… por exemplo nessa história ela é pouco vist… é quase não tem muito um hibridismo. É muitas vezes o controle… a di... o controle de um ou de outro não tem muito a concomitância entre os dois sobre esse mesmo ser.


M: Uhum. 

T: Eles são bem dicotômicos nesse sentido muitas vezes.


M: Uhum.

T: O que mais tem assim, quanto à hibridi… é muitas vezes quando o próprio doutor muitas vezes é tomado, esse enquanto ele tomado possui esse hibridismo mas depois logo passa entendeu? Na pesquisa eu via muito essa transformação da gente ou as vezes muito física…


M: Uhum.

T: Porque a gente começava o trabalho por essa reconfiguração talvez da nos… do corpo.


M: Uhum.

T: E a gente procurava normalmente iniciar num processo onde a gente queria zerar, que não existe realmente, mas era o que a gente procurava, pra partir da li pra buscar o que seria a proposta daquele dia. E a partir do que era esse momento, essa preparação e esse caminho que você prop.... que muitas vezes a gente tava se dirigindo a gente encontrava os caminhos pra essas transformações. E essa transformação muitas vezes era o que seria esse monstro assim, a meu ver… que é essa transformação de como está o estado do meu corpo, e ele se construindo e se adaptando pra esse caminho que a gente tá se dirigindo.


M: Uhum.

T: E essa transformação assim era o que as vezes pra mim esse monstro por exemplo, uma das coisas umas imagens que me remeteram foi por exemplo, quando a Carol tava com a gar… garça… avoa? Que era o dos animais, que era cada um tinha animal…


M: Ah tá… isso bem lá no começo né? Mais lá atrás?

T: Isso, bem lá atrás...


M: Aham.

T: Quando cê come… foi uma das primeiros trabalhos que a gente tava começando a criar essa relação com os animais…


M: Que tinha uma linha né? Uma… um paredão assim…

T: Era, isso… isso. Deu… Aí essa imagem por exemplo da Carol foi uma… é uma das primeiras imagens que eu tenho quando eu penso sobre isso.


M: Ótimo.

T: Essa transmutação desse corpo que passou por uma construção pra alcançar algo e este algo se transmutou nesse animal. Porque você nunca… pelo que eu me lembre eu não lembro de você dizer pra gente ser um animal em si. Entendeu? Mas a gente… mas procurar, aí essa procura da gente com a semelhança aí se tornou esses animais.


M: Você lembra qual era o seu animal dessa époc… desse exercício por exemplo?

T: Não, não lembro. O meu não. Eu lembro que pra mim ficou muito marcado o da Carol mais.


M: O da Carol.

T: É. Que depois foi um dos que você acabou se transformando numa das primeiras coreografias. Que a gente acabou trabalhando. Que era do caminhar.


M: E você acha que essa, essa questão do treinamento que você falou um pouco, como que você vê isso nessa relação como monstro?

T: (suspiro)


M: Você aí de zerar o corpo, que talvez algo que não é possível. Mas tinha alguma coisa ali sobre essa questão do corpo cênico mesmo né?

T: Sim.


M: Dessa construção do corpo cênico.

T: Então. Uma das coisas que por exemplo assim, eu encontro nisso dessa construção com essa preparação, esse… esse remodelamento desse corpo. Eu não acredito que tenha um zerar porque ainda assim é o nosso corpo.


M: Uhum.

T: Ainda são nossas experiências, são nossas vivências que vieram todas daquele dia.


M: Uhum.

T: Então talvez seja um reorganizar, e reestruturar, para alcançar a proposta. Entendeu? Talvez tirar camadas superiores que naquele momento estivessem com maior evidência, levar pra baixo e su… elevar outras camadas que estavam mais escondidas ou mais internalizadas para alcançar aquele trabalho e até talvez reestruturar novas camadas… ou talv… no usando essa ideia de camada como uma parede, cria… engrossar essa parede com novos tijolos, toma formas que se assemelham ou que vão nos permitir alcançar esse corpo que estava sendo trabalhado ali.


M: E você acha que o treinamento que era proposto conseguia proporcionar isso? E depois também, se você vê isso em outros treinamentos que você vivencia, essa questão das camadas, dessas transformações…

T: Uhum. Acredito que sim em certa medida aonde o que você tava propondo não era algo… final. Era uma… era uma ideia, então era mais tangível aquilo que era proposto a ser alcançado, então essa… a nossa… era algo como que você… eu quero que você fa… procurar um caminho de seguir ess…. era um caminho de A até B, nunca se tinha qual o trajeto de A a B. Esse trajeto de A a B era a partir da… de como a gente criava essa construção desse corpo e é… e como esse nosso corpo nos permitia chegar até o B. Diferente de por exemplo de quando eu vou pra uma técnica mais engessada, ou uma técnica onde o caminho já tá mais delineado, que é mais uma transformação do corpo em função da técnica do que a técnica em função ao corpo.


M: Uhum.

T: Fez sentido?


M: Fez.

T: Ah.


___15 min___


M: Cê falou aí de experiências vivências do dia, é um pouco também dessa relação entre... essa sobreposição né… 

T: Uhum


M: Entre eu sujeito que to vivendo no mundo e as coisas que apareciam de repente a partir dessas vivências. E aí tem algumas relações aí na sua fala que ora é… talvez… re… remanejamento dessas camadas, ou dessas evidências né?

T: Uhum.


M: Que não chega a uma neutralidade né… então assim, não é esvaziar zerar o corpo né como você falou. Mas talvez dar outros… outras tonalidades para essas questões.

T: Uhum.


M: Que que é essa… isso que você fala de experiência vivência do dia? Em que medida elas participavam ou deixavam de participar no processo de construção desse corpo percebe?

T: Tá. Talvez quando eu me refiro a essas experiências e essas vivências sejam a carga que vei… tanto que foi vivenciada ao longo daquele dia, quanto as experiências que eu carrego de toda a minha vida. E aí quando eu digo nessa preparação… é como eu é… olho pra essas… pra todas essas informações e toda esse, essa carga que é minha, e aí como eu pego is… toda… essa transformação, essas informações, eu uso ela como alicerce para essa construção, e aí… e aí… pra transformação. E aí vem em um momento mais físico, que seja desde da amplitude da… de alcance de uma abertura ou amplitude de um movimento que eu tenho do meu próprio corpo e os meus padrões que eu tento a seguir e const… e eu vou por estes caminhos. E agora… e não mais, quando eu venho da preparação, não é mais sobre seguir esse caminhos ou negar esses caminhos, mas entender o porque eu sigo esses caminhos muitas vezes…


M: Uhum.

T: Refletir o porque esses caminhos são seguidos… e que… quais caminhos eu posso seguir, ou tanto a partir desse caminho que eu previamente seguia, da onde eu posso ir dali em diante, ou da onde eu posso voltar por esse mesmo caminho e seguir uma nova estrutura, criar este nov.. essa nova trajetória… ou seja…


M: E você diferença quando isso aí que você tá falando agora acontecia pelo treinamento puro, vamos chamar assim bem entre aspas, e quando era por exemplo o momento do ensaio que não era de aquecimento…

T: Hum


M: ...mas que tinham ali princípios do treinamento mas aí que eu trazia essa questão do monstro. Então assim…

T: Uhum.


M: ...isso aí que cê tá falando, esses caminhos. 

T: Uhum.


M: Tem diferença de quando por exemplo, reconhecer os caminhos dos padrões, como que eu me organizo, me dar essas opções né de seguir por aqui ou não ou mudar isso ou não se for possível, pelo treinamento puro e pelo monstro….

T: Entendi.


M: Tem diferença?

T: Tem isso… tem. Viven… da minha experiência sim. 


M: Tá.

T: Porque um, tanto pra mim co… eram muito distinto os dois momentos. Tanto no sentido de que no primeiro momento eu tava procurando muito mais entender o que… o como eu estava. Praí… entender como eu estava, entender como eu podia reorganizar as coisas… era num lugar muito mais de pegar esses tijolos e pensar como eu vou organizar esses tijolos… Ha, eu tenho esse tijolo, eu tenho esse tijolo, eu tenho esse tijolo. O segundo momento pra mim era muito mais, ok, eu já entendi que eu tenho todos esses tijolos e agora como… quais… quais formas eu posso reorganizar esses tijolos…


M: Uhum.

T: Quais formatos esses tijolos geram? Ha, se eu rodar esses tijolos? Ha não se no lugar deu rodar os tijolos, eu me deslocar em relação a esses tijolos…


M: Uhum.

T: Essa transformação do… que aí pra mim era o momento de transformação desse corpo. Que… eu já entendi que meu braço tem uma relação com meu cotovelo que vai ter uma relação com a minha mão. Mas agora como essas relações que foram encontradas, podem ser tanto desconstruídas, desconstruída num sentido de não seguir esse padrão inicial que foi estabelecido de… linha de continuidade, mas sim agora duma relação aonde elas não se conectam necessariamente nesse mesma linha. De um ombro vai vir pro cotovelo, que vai vir pro punho mão. Mas sim nessas novas relações onde eu posso ir ombro mão… e essa ombro mão o que que ela representa e o que que ela significa e quais sensações são geradas tanto pra mim enquanto internas quanto externas quando eu olho pra essa mesma mão e o que que ela me reflete, o que que ela me gera.. e o quan… e o que que essa reflexão tá alc… é… direcionado àquilo que eu estou tentando alcançar.


M: Uhum. Tem uma diferença pra você entre o monstro e o minotauro? Ou eles são a mesma coisa?

T: Sim… pra mim… Porque o minotauro pra mim foi muito… Porque pra mim o minotauro era o personagem, o monstro era eu.


M: É, então, eu to perguntando porque assim, essa segunda parte, por exemplo do ensaio…

T: Uhum.


M: ...quando você fala por exemplo dessa relação braço né… então assim, tem uma relação primeira que é mais reconhecimento dos tijolos num nível mais biomecânico mesmo, aquecimento, preparação. E aí tem esse segundo momento que você falou, que de repente eu vou mudar essa relação… As vezes não... vai ser mão ombro… isso é causado pelo monstro ou pelo minotauro?

T: Entendi.


M: Percebe?

T: Aham.


M: E que tem a ver com isso que você acabou de falar: o minotauro era o personagem, o monstro era eu. (risos).

T: Não, essa transformação do monstro muitas vezes era… era… eu… essa transformação era alcançado por buscar o minotauro, mas o monstro era quando eu olhava isso.


M: Olhava pra si mesmo fazendo?

T: Isso. Olhava essa forma. Que vinha os questiname… que vinha muitas vezes os questionamentos… mas o que é isso? Porque… porque que eu to desse jeito? Será que tá certo? Será que tá errado? Existe certo e errado? Entendeu… Porque que eu to me questionando sendo que eu deveria estar buscando algo? Ou essa questionamento é parte dessa busca também? Ou será que eu to pensando demais e eu deveria estar num momento de co… de corpo? Ou será que tem essa in… intersec… ou tem essa separação de pensamento e corpo? Não existe, já que na faculdade eu to lendo que não existe separação…


M: Risos

T: Mas se não existe separação porque que eu estou parado literalmente pensando só sobre isso no lugar de estar indo pelo movimento?

(ambos em pausa por alguns segundos)


M: E você acha que isso teria sido possível… é porque assim, o minotauro era um personagem e em algum momento ali, como você falou, ele era o motivo da investigação né…

T: Uhum.


M: Mas esse motivo se desdobrou num determinado momento né, que transcendeu talvez até ele próprio….

T: Uhum.


M: Não sei é uma coisa que eu tenho pensado também, percebe?

T: Sim.


M: É….. porque aí tem aqui esse outro tópico que eu coloco que é essa relação com a literatura mesmo tipo em que medida é…. sim, ele era esse catalizador, o minotauro, mas é… tinha algo ali possivelmente que transcendia o minotauro que, em certa medida é o que eu acho que é essa ideia desse monstro mesmo…

T: Uhum


M: Né… é…. então assim, qual a importância da literatura? Qual a importância do minotauro no processo?

T: A importância por exemplo… do pro… pra mim… quando se… seria que o minotauro foi quem gerou os questionamentos e reflexões.


M: Uhum.

T: Ele foi que foi quem propiciou este que… estes questionamentos. Porque pra mim sem os questionamentos não haveria a monstruosidade, que me fez refletir sobre quem eu sou e encontrar esse monstro.


M: Uhum.

T: Talvez nem encontrar, mas olhar pra ele.


M: E você acha que isso aconteceu?

T: Sim.


M: E quando você fala, refletir quem em eu sou, isso cê ach… isso transcende o espetáculo, vai pra vida esses questionamentos ou eles ficaram circunscritos à experiência poética? Olhar pra esse monstro? O monstro sou eu. Como foi olhar pra esse monstro?

T: (suspiro e pausa) Horrível. Não atoa que pra mim iria acabar ao fim do espetáculo. (silêncio).


M: Então eu posso afirmar a partir do que vc tá falando que existe uma relação que transbordou o espaço poético mesmo? Talvez o espaço também… É porque assim, uma coisa que vem me interessando muito é…. e em certa medida eu acho que era um pouco essa observação de fora lembra quando eu falei? Tipo ha, eu ac… eu suponho que algumas coisas aconteceram… tem essa sua questão que você traz de… do fim, do término né? Que… Ao olhar pra esse monstro isso aflora… mas eu imagino que esses desdobramentos eles podem ser os mais diversos possíveis percebe?

T: Sim.


M: Claro, eu to falando aqui com você, essa entrevista é com você, então você vai falar de como isso transbordou na sua experiência. Mas e… mais do que talvez como cada transbordamento acontece é saber se esse transbordamento aconteceu percebe? Se existe esse transbordamento entre obra e vida percebe? É uma das minhas questões entende?

T: Uhum.


M: Você acha que sim? Então…

T: Acredi… Sim, porque a partir do momento que esses questionamentos só f… só foram possíveis serem feitos pela obra. Entendeu? A partir do momento aonde o minotauro fala pra Teseu, que é uma das interpretações que a gente contou… que ele permite que Teseu encerre a vida dele, me leva às reflexões sobre esse pensamento. A par… Só a partir do momento que eu… você fala sobre um labirinto que você está preso… de.. é impossível de sair dentro dele e só você está com ele e ali você está com você mesmo é possível essa… esse pensamentos e essas reflexões sobre isso.


M: Entendi. Entendi.

T: Entendeu? Só a partir do momento que você pega essa construção dess… dessas imagens que são geradas e de… porque querendo ou não, o autor emprega uma visão de vida pela escrita dele, ele gera uma imagem e um significado a partir da escrita dele. Como a gente viu, o mito do minotauro, tinham vários textos sobre esse mesmo tema…


M: Uhum.

T: Mas esse era o… eu não lembro agora se era o único ou o primeiro que falava a partir da visão do minotauro.


M: Do monstro né?

T: Do monstro sobre o tema. Então ha… é… a gente começa a pegar uma visão e estes questionamentos que são colocados já, que tão inerente ao próprio texto, inerente ao próprio monstro, porque ele optou por escolher essa palavra, veio como monstro, não criatura, como ser…


M: Aham.

T: Isso ele já tá empregando um significado e… relevância pra essas palavras.


M: Uhum.

T: Porque ele poderia também nunca ter d… assim como ele optou por não dizer que era o minotauro durante a escrita do texto ele poderia também não ter dito que era um monstro, ele poderia ter dito que era um ser.


___30 min___


M: Uhum.

T: Ele poderia ter optado pelo filho do rei. 


M: Uhum.

T: Entendeu… a escolha...


M: Tem uma intenção aí nessa escolha da nomenclatura né? É isso que vc tá querendo dizer?

T: Sim, entendeu… quando ele… e ele escolhe as relações que ele quer apresentar e essas relações que ele apresenta são o caminho que ele está dizen… que ele tá guiando e que foi o proposto pra… pra… pras questionamentos que foram gerados. Tanto que cada vez que a gente lia o texto, a gente encontrava novos significados.


M: Uhum.

T: Pra esses caminhos. Então só a partir do momento que eu encontro essa palavra e volto nela, com a vivência que eu tive, que eu posso ressignificar o que foi a minha vivência…


M: Essa palavra?

T: Não, as palavras… a… o texto como um todo entendeu?


M: Entendi.

T: E o que foi a minha interpretação do texto… porque eu tenho a minha primeira leitura do texto, a minha vivência do que foi essa leitura e o meu retorno ao texto…


M: Uhum.

T: Com a… e com as experiências…


M: E aí esse processo continua né…

T: Sim e ele vai se recons… se realimentando dentro disso. A cada experiência com essa vivência desse monstro (som baixo) que está sendo corpo (?), vai dar novos significados pro texto assim que cada leitura do texto a partir da minha vivência vai me dar novas leituras para o meu corpo e para os meus caminhos de estruturação desse monstro.


M: O monstro é sempre algo horrível?

T: Não. E é exatamente por isso umas dos meus questionamentos por exemplo quando eu pego a questão da palavra, quando eu pego a ideia de por exemplo eu escolho a opção de por exemplo saber o background por exemplo quando vc pega da ideia desse monstro, ele é uma figura de beleza, de empoder… de poder, de força, e nenhuma dessas palavras normalmente a gente associa a algo ruim ou monstruoso no sentido de feio. A gente só tem a perspectiva da feiúra dele por exemplo dentro do texto que a gente… do momento do estranhamento de quando ele vai sair da caverna. Que aí você por e… por exemplo, a mim gerou o questionamento que talvez eu só veja monstro a partir do momento que eu olho para o meu corpo, que eu passo para olhar pra mim. Enquanto eu estou só no momento de experimentação talvez não exista monstruosidade. Porque…


M: Experimentação…. cê tá falando do personagem no conto ou cê tá falando da sua experiência de experimentação? (risos)

T: Dos dois, mas eu misturei um pouco, deixa eu separar. (risos)


M: Não, mas não tem problema, porque é o que…

T: Ah tá.


M: ...você tava falando antes né…. há uma sobreposição aí.

T: Sim.


M: E é isso que eu venho me… vem me instigando muito sabe?

T: Aham.


M: Então assim, é…. eu só vejo o monstro quando eu olho pro meu corpo, então quando eu to experimentando você quer dizer assim, quando eu não estou a... atento ao olhar pro meu próprio corpo talvez eu não vejo o monstro, eu experiencio o monstro…

T: Enquanto eu estou sendo, talvez seja.


M: Ok.

T: Enquanto eu estou sendo eu sou o que sou.


M: Ok.

T: A partir do momento que eu estou é… talvez… refletindo, eu estou me tornando algo, porque eu crio um prospecto de comparação…


M: Que aí você associou no conto, no texto, que é a hora que ele saí…

T: É…


M: E que ele é visto…

T: Sim.


M: Tem uma questão do olhar aí também.

T: É. É por isso que eu falo assim e aí esse olhar não necessariamente, essa comparação é com o outro, essa comparação pode ser simplesmente com, tanto a minha expectativa, que era tanto no momento de o que eu estou buscando, isso é o que eu to buscando? E se essa comparação não é alcançado talvez seja um… muitas vezes dos momentos que para mim era o monstro. Porque eu não alcancei então se eu não alcancei o que é isso? E talvez a monstruosidade pra… a meu olhar nesse momento seja isso assim: o que é isso que eu to fazendo que não é o que eu esperava alcançar? Sendo que talvez eu nem saiba o que era pra alcançar porque pra mim o que eu queria alcançar era algo inatingível. Porque não era uma expec… Não era algo que eu pudesse saber o que era porque era o que você estava propondo.


M: Uhum.

T: Vinha do outro.


M: É

T: E eu nunca tenho como saber o que é o que o outro quer, por mais que ele detalhe o máximo possível.


M: Isso que você tá falando agora tem a ver com uma outra pergunta que eu tinha anotado aqui que era se… como que você avalia esses dois grandes blocos de diferenças dessas investigações e experimentações que foram antes do FAC e depois do FAC.

T: Uhum.


M: Em que medida essa questão desse olhar do outro né, ou dessa indicação de onde se deve chegar, que acontecia mais no segundo momento depois que entrou o FAC. O que que mudou? Ou não mudou nada, enfim… falar um pouco dessas duas diferenças percebe…

T: Entendi.


M: ...entre essas duas fases do grupo.

T: O que pra mim mudou muito é porque agora a partir do momento que tinha o FAC tinha uma responsabilidade de um produto final, algo precisava ser apresentado, algo precisava ser construído, precisava ter algo final. Antes não tinha essa de… não era… era menos um ponto a ser pensado, menos um questionamento, menos uma cobrança, menos um prazo. E isso era tanto re.. isso pra mim pesava muito porque era mais uma coisa decepcionante pra mim. (silêncio). Era mais uma cobrança.


M: É… é porque quando você fala dessa questão do local inatingível…

T: Uhum.


M: Desenvolva… (risos)

T: Aham.


M: Porque assim eu entendo que sim quando você tem o projeto que entra, o prazo, a obra a ser entregue…

T: Uhum.


M: Se você puder falar um pouco sobre isso… em que medida essa ideia de obra… porque antes existia também uma ideia de construção percebe? Existia também...

T: Sim.


M: ...claro, só que ela era mais flexível por exemplo quando a gente faz pro pátio do IFB e faz uma coisa mais… menos amarrada né…

T: Aham


M: Uma cena mais expandida, uma relação de improvisação… enfim, ali… mas ainda existia também essa questão do outro.

T: Uhum.


M: É porque tem vários outros nesse processo.

T: Sim.


M: Tem o outro que é o outro que tá fora mas tem um outro outro também que você já falou que é um outro de si consigo né?

T: Uhum, sim.


M: Que é um outro né… enfim. E aí eu vejo que em certa medida sempre existiu essa, esse local a se atingir que vc tá chamando de inatingível.

T: Uhum.


M: Mas eu entendo as diferenças entre os dois momentos, que no segundo momento era um local muito mais definido, imposto, com prazo e etc. Como que o monstro ficou no meio disso percebe?

T: Aham, então. Uma das c… por exemplo, o que eu vejo de de maior diferença. Que a partir do momento que a gente tinha esses… o espetáculo a ser produzido, o monstro precisava aparecer. Eu precisava necessariamente trazer o monstro que pod…. era interno, para fora. Ele precisava est… sair. No sentido de, agora de que, agora esse monstro prec… ele começa a tomar o lugar de protagonismo, onde antes esse monstro era um gerador. 


M: Entendi. O monstro enquanto gerador é menos aterrorizante que o monstro como protagonista?

T: Sim porque… a partir do momento que eu olho pro monstro enquanto protagonismo eu quero me tornar esse monstro, mas eu não sei o que é esse monstro, então como posso me tornar algo que eu nem sei o que é?? (silêncio) E talvez esse seja o questionamento do porque isso se torna o monstro. (silêncio). Que aí se torna uma pa… vira quase uma paralisia dentro dela própria. Porque eu to buscando algo que eu não sei o que é e talvez esse o que é seja exatamente o que eu estou sendo. Mas como eu não sei o que é, eu nunca vou conseguir dizer qual do o… qual seria ele. E a partir do… enquanto ele tá como gerador ele tá me guiando, talvez noss… no sentido de uma corrida seria uma corrida aonde ele está ao meu lado.


M: Uhum.

T: Um a gente ta correndo junto no outro eu to correndo para alcança-lo. Faz sentido?


M: Não sei… você… tem que fazer sentido pra você. (risos)

T: (risos) Não nada faz sentido… nada faz sentido na minha… pra mim, e esse é o maior problema.


M: Tascio, teve uma vez nesse ensaio me marcou muito, que foi um dia que a gente tava acho que discutindo acho que se não me engano foi o dia que a gente leu o texto do Charles Feitosa que falava sobre os labirintos não sei o que… 

T: Uhum.


M: E que eu trouxe, é, eu comentei essa questão da morte, dessas mortes simbólicas e dessa questão da morte que aparecia dentro do do da própria história né do mito, clássico né, grego. E aí você falou, esse dia me marcou muito, porque você falou com a maior naturalidade como quem diz, tipo assim, nossa, você não tinha percebido isso até hoje? É… eu lembro que você falou algo do tipo nossa mas pra mim sempre foi sobre morte, desde o começo…

T: Sim.


M: ...desde antes já era sobre isso. Então pensando um pouco sobre isso, não só a morte no sentido é, literal né…

T: Uhum.


M: É… mas também nessas diferentes possibilidades de morte e de… simbl… símbolos desses fins, que de certa forma é... tem a ver com… com essa questão do monstro…

T: Uhum.


M: Como que você vê isso dentro do processo? Já que você trouxe essa fala nesse dia de maneira tão natural assim, e de como… as vezes até com uma percepção super aguçada coisas que eu tava começando a sacar ali naquele momento, a gente já tinha alguns meses de trabalho né? 

T: Uhum.


M: E você já pensava sobre isso…

T: Um porque isso é um... algo dentro das minhas vivências que é um questionamento que eu tenho próprio. E outro também num lugar de que pra mim quando ele apresenta a ideia das mortes é sobre uma ideia do que preci… quando ele fala sobre quais as liberdades que isso causam. As mortes vêm muito mais num sentido de uma liberdade do que um aprisionamento. O aprisionamento era sobre a vida dele. E aí, por exemplo, quando ele apresenta, por exemplo, as mortes no senti… por exemplo, a partir do momento que ele passa a viv… por exemplo, a, uma das vivências dele de quando ele a… a comparação lá de quando ele sai da caverna e vê os outros, quando ele vive isso, ele cria mais uma prisão de que ele criou uma imagem de que ele não é belo, porque ele se comparou com o outro. Essa vivência gerou uma prisão.


M: Uhum.

T: Entendeu? E quando ele por exemplo busca essas m… ele fala que encontra essas mortes como uma liberdade dessas vivências…


M: Uhum, desses aprisionamentos.

T: É, desses aprisionamentos. E o labirinto quando eu olho pra ele, por exemplo, quan… nesse dia do… das mortes… é uma… as mortes… de… do refletir como você entender aquilo, assim como por exemplo, aquela fra… eu não lembro de quem é… que é a frase do “você é livre a partir do momento que você escolhe as suas prisões”. Entendeu (murmurando). 


___45 min___


T: Então, você só… e essas prisões e essas liberdades era muito esse jo… esso jogo entre vi.. essa… o que é o viver pra ele e o que é o morrer, porque a partir do momento que ele é o rei daquele lugar, ele é a maior criatura, o maior ser ali onde tudo é possível pra ele naquele lugar, aquele é o lugar aonde ele tá preso, ele só é livre no maior lugar aonde ele tem toda a liberdade e todo o poder a partir do momento que ele perde totalmente essa… essa liberdade de ser o que ele quiser ali dentro, que é quando ele morre. Ele tá livre daquela prisão. Ele tá livre daquel… Então talvez todos os questionamentos e todas as brincadeiras so… ele só esteja livre delas, a partir do momento que elas acabam.


M: Mas você acha que o monstro ele, nesse jogo de prisões e libertações, ele aprisiona ou ele liberta?

T: Ele é a própria prisão dele. Porque assim como é dito no texto, não tem uma grade. A prisão é ele próprio que definiu pra ele. Assim como…


M: E você acha que isso vale pra todos os monstro? Ou só pro minotauro que mora num… num labirinto?

T: Não, pra todos. A par… É aí que vem a ideia de quando eu digo que o monstro não é o minotauro. A monstruosidade a meu ver ali talvez seja a partir do momen… os questionamentos e as reflexões que ele tem… sobre ele próprio (inaudível). Porque a partir do momento que ele se questiona sobre o corp…. sobre ele ser diferente e aquele outros que ele encontra, é que isso torna ele monstruoso. Entendeu? (murmurando). Ele só é monstruo… por exemplo, a morte daquelas pessoas que foram enviadas para ele que ele matou só é uma monstruosidade vista do ponto de… de quem ta vindo de fora. Se a gente pega por exemplo do ponto de vista legal mesmo, jurídico, é auto defesa.


M: Uhum.

T: Ele nunca v… por exemplo, dentro da sociedade aqui, a gente… uma pessoa é a é… ele tá sendo atacado, as pessoas estão invadindo a propriedade dele…


M: Perfeito.

T: ...perturbando (inaudível) ...a vida dele.


M: E como que você transplanta isso pra sociedade mesmo, pro mundo real, pra além da fábula, pra além do texto? Porque é isso percebe? Ess… Até nesse aspecto jurídico, nesse aspecto dessas necessidades dessas libertações… é… dessas relações… é… existem diferentes maneiras de encaminhar essas libertações e essas prisões dentro do mundo real… O monstro sempre vai levar a cabo as mortes em sua literalidade, as… os assassinatos de outrem em sua literalidade? Ou… e… como acessar… como olhar o monstro como esse, essa potência percebe?

T: Aham. É… Não. Não vejo como sempre ele vai levar essa la... literalidade. Porque essa literalidade só foi alcançada pelo que era a sociedade daquele tempo por exemplo… Aquela sociedade como ela se organizava e o que era pensado na época era o que tornava os atos dele o que foram. Se naquela sociedade por exemplo… como se lidade com aquele ser fosse diferente, a resposta desse ser seria diferente aos atos. E ele só visto como… a monstruosidade só é vista porque aquela sociedade tem uma visão anterior do que ele deveria ser e do que ele deveria alcançar. Quando eles é porque se você pega as premissa do que é aquele monstro, ele é o maior... um dos maiores nobres que tem dentro daquela sociedade. Mas como essa contraposição dessa nobreza é batido diretamente com a imagem que deveria ser de um ser nobre daquela época… não é… não são cumprida essa expectativa, ele se torna monstruoso ao olhar dos outros. Porque se tem uma imagem daquilo que ele deveria ser e não daquilo que ele é.


M: Uhum.

T: E isso a gente pode ser transplantado tanto nessa visão mais macro como sociedade, aonde, o monstruoso é aquilo do qual não se enquadra dentro do proposto.


M: Uhum.

T: Ou, assim como dentro da minha próprio ser, que o monstruoso se torna aquilo quando eu não alcanço o que eu espero, da minha expectativa, que me gera o questionamento do o que é isso.


M: E o desembocar desse questionamento você falou que foi horrível. Essa é a única possibilidade?

T: Então…


M: De encaminhamento desse questionamento?

T: Então, por exemplo, o desembocar desse questionamento como dito como horrível não é o desembocar, é a expectativa. Porque se tivesse finalizado, não seria horrível.


M: Se tivesse finalizado o que?

T: Se eu tivesse morrido.


M: Entendi.

T: Não seria horrível porque não teria essa reflexão de agora. E não teria as expectativas que são esperadas da fala.


M: Isso, essa experiência, como um todo, como foi de maneira geral, global, passar por essa experiência?

T: Do grupo de pesquisa ou da construção do monstro.


M: Tá ligado né?

T: Sim mas são diferentes.


M: Fala das duas.

T: (risos) Entendeu… Porque quanto à grupo de pesquisa por exemplo era muito bom porque quando eu pensava quanto ao que é o grupo de pesquisa e a que…. são lugares diferentes aonde eu crio aquilo que eu… deve ser alcançado. Visto que quando você apresentou a primeira vez do que era aquele grupo de pesquisa, era uma reflexão muito mais fisiológica anatômica do que é… cênica, ques… reflexiva.


M: Uhum.

T: Então era algo mais palpável de ver os resultados e entender aquilo que deveria ser alcançado.


M: Uhum.

T: Gerava menos questionamentos e mais pontos de alicerce do caminho. Porque é algo mais tangível querendo ou não. Ainda assim… por maior que seja o questionamento eu podia pegar um livro, da própria Bartenieff e ir ler o que era aquilo, eu podia ir no Laban e entender o que estava falando… eu podia pegar um texto do teatro e pesquisar o que era o corpo presença que você falava. 


M: Ok.

T: Eram coisas mais palpáveis que eu conseguia ir encontrar o que era esse lugar. Quando a gente entra na questão do monstro, era muitas vezes, passava muito mais sobre talvez o que… uma pergunta. Se tornou muito mais uma pergunta do que um local.


M: Uhum.

T: Tanto que uma das coisas pra mim que ficou mui… que era muito grande dentro do grupo era… não… não fa… é… não vai no mo… não faz o movimento. Deixa o movimento guiar. Que era essa ideia de pegar essa expectativa daquilo que eu quero ir e deixar ela anterior ao próprio movimento. Que talvez seja aí o momento aonde eu saio um pouco do se tor… ser menos alcançar… eu estou sendo, eu não est… e esse ser não necessariamente tem um caminho. Marcos?


M: Falhou um pouquinho aqui né…

T: É isso que eu perguntei como cê tá gravando é por isso que eu parei pra saber se… vo...


M: Vo… Parece que voltou agora.

T: Tá. Entendeu? E aí esse próprio se… voc…


M: Não, travou de novo. (risos)

T: Eu to preocupado por causa que como você vai gravar…


M: Isso é normal de vez em quando a internet da um… vamos esperar alguns segundos.

T: Uhum.


M: Vá falando…

T: Ah tá. Entendeu… esse próprio ser seria um fluir, entendeu…. que talvez seja muito quando a gente reflete do… menos do… não é sobre o a…. não é sobre o depois ou o antes, é sobre o agora. 


M: A parte que falhou foi é… logo depois que você falou que no segundo momento se… a partir, quando o monstro entrou era mais uma pergunta.

T: Sim, ah tá. Então, pra mim era m… é talvez seja mais como uma pergunta de… desse questionamento do que é esse monstro, de como o meu corpo se transforma nesse monstro, o que é esse monstro do meu corpo, o que é eu enquanto monstro… entendeu? Essa intersecção do eu monstro, o que é isso, como eu alcanço isso, por onde eu vou, quais caminhos eu percorro… entendeu? Quis caminhos são os caminhos cor… corretos ou não… isso é o eu monstro? Existe o eu monstro? Ou só existe o eu mesmo e o eu mesmo só a minha interpretação que transforma ele em monstruoso ou não?


M: Uhum.

T: Será que o di… o monstro é sempre o disforme? Será que eu estou alcançando esse monstro a partir do momento que eu encontro uma deformidade? Porque eu estou me afastando do padrão do humano? Dessa anatomia que a gente encontra como… que a gente define como a anatomia humanóide?


M: Uhum.

T: E aí eu só posso ser monstro a partir do momento que eu me afa… me distancio dessa humanidade? Ou essa humanidade é o próprio monstro em si? Mais ou menos isso… por isso uma pegunta.


M: Minha tese está nessa huma pergunta (risos) em certa medida.

T: (risos) Sim.


M: Que veio um pouco disso que eu falei, como foi de maneira global passar por essa experiência né… é…

T: Uhum.


M: É… como… é isso porque ela tem momentos intensos, teve momentos intensos, vários. Em diferentes aspectos e níveis. E é um pouco o que eu to tentando entender agora né...

T: Teve até big brother com eliminação…


M: Teve menino.

T: (risos)


M: Teve de tudo. Em que medida, em algum momento, é... e eu acho que tem a ver com uma fala sua anterior que é, essa relação entre monstro produtor e monstro protagonista. 

T: Uhum.


M: E a questão é… entender também que… talvez não seja uma polaridade entre o monstro produtor e o monstro protagonista, mas é uma maneira diferente de se relacionar com o monstro protagonista percebe?

T: Sim.


M: Porque eu acho que se trata do monstro protagonista.

T: Uhum.


M: De entender o monstro protagonista.

T: Uhum.


M: É… Alguma outra questão colocação? Nessa última pergunta você falou que tinha du… dois jeitos de responder daí falhou já não entendi mais se já… se você já falou os dois ou não…

T: Ai, eu não lembro agora. Era dois jeitos de responder pra qual pergunta? Pro…


M: É porque eu falei como foi passar por essa experiência. Você falou ai, em relação ao grupo de pesquisa ou em relação a não sei o que que eu não lembro…

T: Ah tá. Em relação ao grupo de pesquisa foi quando eu comecei no sentido de que era algo mais anatômico.


___60 min___


M: Isso. Isso...

T: Entendeu… era essa construção de que era algo mais palpável de que era algo lu… um lugar onde tinham mais coisas físicas realmente e alicerces bem definidos e estruturados.


M: Então mas você consegue qualificar isso? Adjetivar isso? Quando eu pergunto, como foi passar por essa experiência? Você descreve os momentos mas você não adjetiva eles…

T: (murmúrios) Aham.


M: Cê não qualifica eles percebe?

T: Eu sei… a prop… (murmurando) Então. Como foi. Então. Tá.


M: (risos)

T: É porque adjetivar significa dar valor…


M: Sim…

T: E pra… e dar valor significa que eu estou dizendo a… aí entra o lugar de por exemplo, se eu estou dando valor pra algo quer dizer que eu estou me distanciando daquilo que talvez você… da expectativa do que você quer…. quando eu descrevo algo eu estou tirando o meu pessoal, eu to impessoalizando aquilo.


M: Muito bem, é por aí.

T: Eu sei, eu sou excelente com… 7 semestres de psicologias foram ótimos pra saber como não… (inaudível)


M: Pois então… (risos) É porque não…. é porque assim… eu acho que a gente tem que olhar também pra questão da valoração para além dos julgamentos e para além também desse olhar maniqueísta “bom ruim certo errado” percebe? Mas é um… é de fato eu… eu preciso de uma implicação percebe?

T: Uhum.


M: Como você se implica quando você avalia essa experiência percebe?

T: Uhum.


M: Como foi passar por isso para além de ter sido prazeroso ou não, bom ou ruim. Porque, até pra gente ir finalizando, tem uma última relação que me interessa que eu gostaria de ouvir você, em relação a esses… esse tempo de trabalho, que é iss… justamente sobre essa relação de atração e repulsa.

T: Uhum.


M: Entre esse lugar do monstro como algo que se deseja, que ele tem um magnetismo que atrai, e um… e… e ao… ao mesmo tempo e igual intensidade algo que repele, que, nos distancia. Essa… esse jogo percebe?

T: Uhum.


M: E eu acho que passa por isso porque quando eu pergunto como foi passar por essa experiência, e nos diferentes momentos dela, eu acho que se trata talvez dessas… de uma im… avaliação dessa implicação.

T: Uhum. Então… por exemplo, dentro dessa pergunta que s… sobre essa atração e essa rejeição… é um lugar muito… delicado, porque é um lugar de muita liberdade e aprisionamento, voltando àquilo. Porque ao… quanto à… aquilo que ele atrai porque a partir do momento como… como monstro, eu estou livre da, de amarras, sobre o que eu deveria… sobre como deveria ser, como deveria agir, como ele deveria se portar. Porque ele já não aceito, ele já não é… ele já tem aqu… já tem os pré julgamentos e as construções que foram impostos à ele. Então ele se já está livre pra ser o que ele é porque não tem mais expectativas. Ele… quando eu olho pro… por exemplo, pro meu corpo e eu vejo essa tortuosidade ou esse monstro que eu estou agora, eu posso ser o que eu quiser e eu sou um monstro, eu não to dentro do social, eu saí do social então eu posso, se eu sou um monstro eu sou qualquer coisa. Então é… esse monstro me permite ser quem eu quiser ser ou o que eu quiser ser. É um lugar muito de liberdade no sen… nesse caminho de poder alcançar, eu posso agir como eu quiser, porque a minha monstruosidade é isso. Porque eu já me afastei do social que me torna… que a humanidade é como sociedade. O monstro não é humano logo ele não é social, por isso ele é monstruoso. Ele se afastou desse caminho. Então se ele não é social ele não tem todos os julgamentos e todas as pré suposições do que é o ser humano, do que é ser um ser.


M: E você deseja isso?

T: Então. O desejo está no lugar de não ter imposições, não ter julgamentos, não ter pré definições. Você pode… essa liberda… essa liberdade de alcançar e se tornar… e talvez esse… ter e se tornar seja quem você já é. Esse… você vai ser quem você já é. Só que a p… você está sendo quem você é porque você é. E não porque tem que ser. Quando a… e aí se torna esse repelir. Mas se eu sou quem eu sou eu não sou social. Porque eu sou somente eu. E ser somente eu não me conecta com o outro. Quer dizer que eu estou sozinho. Então esse ser… ele se torna sozinho, se torna único. E se tornar único é se tornar especial. Se tornar diferente. Isso é atrativo. Porque enquanto você está no meio social você é o todo. E ser o todo v… se cada um for você prórpio… ele próprio, nós não temos um todo, você não tem essa construção de que o que nós deveríamos ser para o bem de todos… porque quando a gente tá em sociedade não… o que importa não é o que é melhor pra mim, é o que é melhor para nós. E se é melhor p… se o melhor para nós é você não ser você, você tem que ser aquilo que é o nós. Mas se eu sou nós eu não sou eu.


M: Não existe como s… ex… é… não ex… não tem como existir uma sociedade de monstros?

T: Tem. Só que aí ninguém é mo… só que aí ninguém se torna… ninguém é monstro.


M: Então não tem como….

T: Entendeu. Sim…


M: Existir uma sociedade de monstros... (risos)

T: Entendeu… todos são monstros então… é iss… 


M: Tem um…

T: ...essa atração…


M: Mas aí é que tá…. mas aí é que tá… tem um autor que ele vai falar sobre essa…. é… questão dá… da monstruosidade como políticas da multidão.

T: Uhum.


M: Tem questões aí…. mas Tascio, como foi passar por essa experiência?

T: Haaa, eu não respondi não? (murmurando). Eu não respondi não?


M: Cê não precisa responder também se for…. se você...

T: Não é… por… hu… eu desvio desculpa… É… (pausa) Foi muito bom. Foi muito bom porque na, enquanto eu estava vivendo pra mim era um momento de encerramento, então como pra mim tudo iria acabar, agora quanto à projeto, era muito libertador. Por… pra mim só tinha um lugar de que, apesar de todos os empecilhos e todas as incapacidades, eu sabia que ao final de tudo teria um fim. Entendeu… Então eu poderia dar o meu melhor ali. Porque aquele seria o meu último momento. Então eu queria fazer este último momento bem, o melhor que eu pudesse. Eu… então era muito prazeroso poder olhar todos os dias aquele lugar e s… e poder olhar cada um daquele momento, que eu sabia que ele ia acabar. E poder ser aquilo… que logo talvez eu não fosse mais.


M: Uhum.

T: Então… e era um lugar de enquanto monstro, muito livre, porque essa monstruosidade tava quando era muito… v… me… pegava muito mais em locais de que eu me via como monstro quando eu não estava ali atuando como monstro.


M: Uhum.

T: Porque talvez entrando nesse lugar do social se existe uma sociedade de monstros a partir de nós… você conseguir se olhar como monstro… e ou… o monstro é quem você é. E não quem você precisa ser para se diferenciar do social.


M: Uhum.

T: Então era muito bom poder estar ali. Era muito aprendizado, era muito gratificante ver as transformações e as construções alcançadas. Ver as mudanças tanto do meu corpo, quanto das perspectivas que tav… poderia ser alcançadas. Ver a construção… E aí uma das importâncias do projeto era… que nós… como nós tínhamos que construir um espetáculo tinha mu… era muito gratificante apesar de todas as… os percalços do caminho, ver a finalização, ver o resultado das construções. Ao ver essa… todo esse ano, se resultou em uma caminhada. E você… e essa caminhada era perceptível o trabalho desse ano.


M: Uhum.

T: Entendeu… por mais que essa caminhada não fosse nada além de uma caminhada. Mas era isso que tornava ela completamente diferente de qualquer outra caminhada. Foi respondido agora?


M: Foi. Você… tudo que você disser é resposta (risos). Querido, acho que passei por todos os meus pontos. Tinha um ponto aqui que era como você chegou no grupo, o que te cham… quem é você, boas vindas, mas a gente já tava batendo papo… e aí acabou é… a gente começando por… pelo meio, foi pro final, voltou, tamo finalizando aqui pelo começo…

T: Ok… acho… meio tarantinesco….


M: É o que?

T: Acho bem tarantinesco.


M: Tarantinesco. Muito bem. E aí é isso, agradeço muito, muitíssimo, muitíssimo a disponibilidade, foi muito bacana. E… é… nesse fim de semana né? Pleno sábado. Você ter vindo aqui conversar comigo.

T: Que isso…


M: Vou finalizando aqui a gravação tá bom?

T: Uhum, claro.


___73 min___


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