Exercício I - Estudos de textos acadêmicos [Santiago Dellape]

Universidade de Brasília - UnB

Instituto de Artes

Departamento de Artes Cênicas

Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas / Mestrado

Linha de pesquisa: Processos Composicionais para a Cena

Metodologia de Pesquisa em Artes Cênicas 2º/2020

Prof. Dr. Marcus Mota

Discente: Santiago Machado Dellape

Matricula: 20/0085492

Data: 15/09/2020


Exercício I - Estudos de textos acadêmicos


Busquei dissertações que tivessem pontos de convergência com minha pesquisa. A primeira delas foi O garoto de Juan Lacaze: invenção no teatro de Hugo Rodas, dissertação de Mestrado em Artes na UnB, defendida por Claudia Moreira de Souza em 2007 sob orientação do Prof. Dr. Marcus Mota. O trabalho estuda a poética teatral do dramiurgo – conceito estabelecido pela autora para referenciar o labor de encenador-dramaturgo – Hugo Rodas, diretor de teatro, multiartista octogenário e professor emérito da Universidade de Brasília. Esse olhar sobre a figura do artista e sua obra surge a partir de duas frentes de pesquisa: a perspectiva histórica, que reconstitui a trajetória de Rodas desde a infância no povoado operário uruguaio de Juan Lacaze até fixar residência em Brasília e se firmar como nome indispensável da nossa cena teatral; bem como o acompanhamento e análise crítica do processo criativo do espetáculo O Inspetor Geral (2006), montado por alunos da disciplina Interpretação IV sob a batuta do maestro Hugo.

Quanto à sua organização formal, a estrutura da dissertação é muito simples, sendo que ela está dividida em dois blocos, cada um dedicado a uma das frentes da pesquisa. O primeiro bloco contextualiza a formação pessoal e artística de Rodas e está dividido em dois capítulos: o primeiro dedicado à sua infância e adolescência em Juan Lacaze, e o segundo com foco na juventude em Montevidéu e no Chile, onde viria a fazer suas primeiras incursões teatrais. Já o segundo bloco constitui uma pesquisa de campo sobre o processo criativo do espetáculo O Inspetor Geral e traz também dois capítulos: um que analisa as qualidades de Hugo Rodas como diretor de atores, e outro que se debruça sobre seu trabalho como encenador para adaptar o texto original de Nicolaï Gogol e criar o espaço cênico da peça.

A metodologia empregada na pesquisa lançou mão de diferentes abordagens. O primeiro bloco está fundamentado, principalmente, numa série de entrevistas com Hugo para levantamento de dados biográficos (feitas pela autora, Marcus Mota, Lourenço Cazarré e Cláudia Theo, cuja transcrição na íntegra é um dos anexos da dissertação), bem como numa extensa pesquisa video-bibliográfica sobre o diretor, que inclui títulos como: Histórias do Teatro Brasiliense, organizado por Fernando Villar e Eliezer Carvalho; TUCAN - Pequena História do Teatro Universitário Candango, de Adriana Muniz e Evandro Salles; Fazedores da Cena Candanga, de Lourenço Cazarré; A História que se Dança: 45 anos do movimento da dança em Brasília, de Yara De Cunto; a dissertação de mestrado (A) bordar Memórias, tecer histórias: fazeres teatrais em Brasília (1970-1990), da historiadora Elizângela Carrijo; e o documentário Palco dos Sonhos: na companhia de Hugo Rodas, de Isabel Bündchen e Marina Simon. 

Para o segundo bloco da dissertação, a autora empreendeu a metodologia da pesquisa de campo, em que ela participou como observadora dos ensaios do espetáculo O Inspetor Geral, produzindo um diário de anotações pessoais e gravações em fita K-7, que foram posteriormente transcritas para embasar a análise crítica de Souza ao processo criativo de Hugo Rodas. Quanto à bibliografia que serve de referência à pesquisa, além daquela específica sobre Hugo Rodas, a autora recorre a institutos do pensamento filosófico (Bachelard, Bakthin, Pareyson), teatral (Artaud, Brecht, Stanislavski, Tchekhov) e mesmo da psicologia (Freud), para estabelecer um diálogo multidisciplinar com a estética do aclamado diretor brasiguaio.

A segunda dissertação estudada foi Abordagens de processos criativos: O teatro de Hugo Rodas, defendida por Angélica Beatriz Souza e Silva em 2014 com vistas à obtenção de grau de Mestre em Artes pela Universidade de Brasília, também sob orientação do Prof. Dr. Marcus Mota. A pesquisa se propõe a investigar diferentes abordagens sobre o conceito da criatividade, para em seguida relacioná-las ao fazer artístico de Hugo Rodas, tendo como recorte o processo de criação do espetáculo Rei David (2012).

Estruturalmente, o corpo da dissertação está dividido em cinco capítulos. Os dois primeiros dedicam-se à investigação do conceito de criatividade, de maneira geral, e de questões a ele subjacentes, sendo que o primeiro capítulo subdivide-se em três para analisar separadamente as definições de 1) criatividade; 2) criatividade em relação a trabalhos individuais e coletivos; 3) a inovação no ato criativo; ao passo que o segundo capítulo se detém sobre a conceituação de criação enquanto processo. 

O terceiro capítulo faz um levantamento do que já havia sido publicado por outros autores até aquele momento sobre a vida e obra de Hugo Rodas, retomando muito da bibliografia anteriormente pesquisada por Claudia Moreira de Souza e acrescentando a ela títulos como: Hugo Rodas, de Hugo Rodas e Marcus Mota; Cidade Teatralizada, de Celso Araújo; Canteiro de Obras, de Glauber Coradesqui; A educação pela arte: o caso Brasília / A educação pela arte: o caso Garagem, de Maria de Souza Duarte; o artigo A discussão da ideia de Espaço em Kant e seu contraponto na teatralidade, a partir de comentário de uma montagem de Hugo Rodas, de Marcus Mota; bem como a própria dissertação de Souza, O garoto de Juan Lacaze: invenção no teatro de Hugo Rodas. O quarto capítulo se detém sobre especificidades do trabalho de Hugo Rodas com o elenco dentro do processo criativo de Rei David. Já o quinto capítulo relaciona o fazer teatral de Rodas com as propostas do teórico François Delsarte (1811-1871) e do músico austríaco Émile Jaques-Dalcroze (1865-1950).

A metodologia utilizada por Silva é muito próxima àquela empregada por Souza, que sustenta suas colocações com base em pesquisa bibliográfica, pesquisa de campo e entrevistas com Hugo Rodas. Em sua incursão a campo, Souza igualmente recorreu à ferramenta do diário de bordo para tomar notas, posteriormente transcritas e anexadas à dissertação. Observe-se que o período de tempo relativamente curto a separar os dois estudos sobre Rodas (sete anos) foi suficiente para marcar a obsolescência de um formato tecnológico (K-7), suplantado pelo formato digital, que foi o escolhido por Silva para registro audiovisual dos ensaios e das entrevistas com o artista (anexados à dissertação em CDs e DVDs).

Com relação aos referenciais elencados pela pesquisadora, para além da atualização dos escritos sobre Hugo Rodas é notável o aprofundamento na bibliografia que trata especificamente de temas relacionados aos conceitos de criação, criatividade e processo criativo, na acepção de autores como Domenico De Masi, Charles Watson, Cecília Almeida Salles, Fayga Ostrower, Amit Goswami, Howard Gardner, Cezar de Almeida, Roger Basseto, Eunice Soriano de Alencar e Denise de Souza Fleith.

A terceira dissertação analisada foi Caminhos Múltiplos: Investigações para a montagem da peça EUTRO do Grupo Experimental Desvio, de Rodrigo Desider Fischer, defendida no Mestrado em Artes da UnB em 2008, sob orientação da Profa. Dra. Rita de Almeida Castro e co-orientação da Profa. Dra. Roberta Kumasaka Matsumoto. A pesquisa tem por objeto o trabalho de atuação desenvolvido no processo criativo do espetáculo EUTRO, dirigido por Fischer, dentro do qual se investiga como a verdade cênica pode conduzir o trabalho do ator, considerando a identidade do sujeito (ator) e sua subjetividade em cena.

A dissertação está dividida em três capítulos. No primeiro, o autor relata a trajetória do Grupo Experimental Desvio, que constitui nascedouro dos questionamentos e inquietações que irão motivar o surgimento mesmo da pesquisa. Para isso, Fischer lança uma retrospectiva sobre a trajetória da companhia desde sua formação em 2001, e revisita criticamente os dois espetáculos que antecederam EUTRO: Pequena existência, uma disputa na merda (2002) e Beckett às Avessas (2004). Ao final do capítulo, o pesquisador relata como o coletivo trabalhou sobre um recorte do Teatro Pobre de Jerzy Grotowski em seus experimentos iniciais, buscando a técnica da via negativa para liberar os bloqueios, clichês e automatismos cotidianos do ator.

No segundo capítulo, Fisher reflete sobre o conceito de verdade cênica stanislavskiano em diálogo com autores mais contemporâneos como Peter Brook, para adaptá-lo ao contexto do grupo. O terceiro e último capítulo da dissertação está dividido em três partes: a primeira traz o relato de todo o processo criativo que levou à primeira montagem da peça, ainda com o título Eutro - tequila à luz de velas, em 2006; a segunda é dedicada à análise da recepção do espetáculo a partir de depoimentos de espectadores; e a terceira descreve todas as mudanças pelas quais o trabalho passou a partir dessas avaliações até atingir sua forma final, no ano seguinte, intitulado simplesmente EUTRO.

A metodologia utilizada por Rodrigo Fischer é bastante diversificada e compreende: pesquisa bibliográfica, ensaios, pesquisa de campo, pesquisa qualitativa e diário de bordo – não só dele, mas dos quatro atores da companhia. É interessante perceber que o diretor recorre ao expediente de traçar uma retrospectiva crítica dos trabalhos de seu próprio Grupo para melhor pavimentar o caminho de problematizações que acaba dando origem à pesquisa. 

Quanto aos referenciais bibliográficos, o pesquisador recorre com frequência aos debates trazidos pela Antropologia Teatral de Eugênio Barba, enriquecida pelos escritos de Luís Otávio Burnier, do Lume e de cânones do pensamento teatral como Stanislavski, Grotowski, Brook e Mnouchkine – embora seja possível destacar também a contribuição de autores vinculados a outras áreas do conhecimento, como cinema (Bresson), comunicação (McLuhan) e literatura (Pessoa, Dostoiévski, Zola).


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Exercício I - Estudo de Textos Acadêmicos - Fernanda Pimenta

AUTOAPRESENTAÇÃO - Meimei Bastos

ENTREVISTA com Maku Fanchulini e Pepa Plana - por Fernanda Pimenta