Análise sobre a organização e distribuição de conteúdo em teses

A visita do Divino – O sagrado e o profano na espetacularidade das folias do Divino Espírito Santo no entorno goiano do Distrito Federal, de Jorge das Graças Veloso (2005) / https://repositorio.ufba.br/ri/handle/ri/27284

Dividida em três capítulos, essa tese trata dos saberes religiosos da Folia do Divino nos municípios de Novo Gama, Santo Antônio do Descoberto e Luziânia. A Folia de Roça do Novo Gama, segundo o autor, tem características que a colocam no universo das práticas e comportamentos humanos espetaculares organizados (PCHEO), objeto da etnocenologia e seus diálogos interdisciplinares. Além da análise, a pesquisa resultou em um espetáculo teatral baseado na folia.

No Capítulo I é traçada as trajetórias históricas e religiosas da manifestação em louvor ao Divino Espírito Santo. Sob a perspectiva historiográfica, o autor propõe como viés metodológico o que se convencionou a chamar de Nova História, legitimando os saberes comuns, aqueles ignoradas pelas instituições oficiais. Autores dessa corrente teórica como Jaques Le Goff, Michel Vovelle, Roger Chartier, Fernand Braudel e Peter Burke subsidiam o autor em suas análises e se aproximam do l’homme ordinaire, de Michel Mafessol,i e da estetização da vida cotidiana, de Erving Goffman.

No Capítulo II, o autor faz reflexões éticas sobre a prática religiosa do grupo inscrito na contemporaneidade, transitando por aportes teóricos filosóficos, sociológicos e psicológicos. Stuart Hall é um dos autores citados para tratar das identidades múltiplas e móveis do sujeito na cultura pós-moderna, bem como Jacques Lacan e Èmile Benveniste, para falar do duplo “eu”, do eu que dialoga com o tu que se constitui a partir da linguagem significante da alteridade. Nesse capítulo o autor trata também de noções de homo religiosus e seu corpo imaginante, citando Gaston Bachelar e Gilbert Durand.

No Capítulo III, é feita uma descrição etnográfica da Folia de Roça do Novo Gama, que resultou no processo de criação do espetáculo Inderna de Intão. O autor fala da força estética da manifestação como matriz cênica e como cena contemporânea. Aqui é citado Victor Tuner para enfatizar a complexidade e riqueza simbólica desses ritos. Armindo Bião, orientador da pesquisa e uma das principais referências dos estudos etnocenológicos, é bastante recorrido. Nesse capítulo, também são discutidos questões como o sagrado e o profano, através de Émile Durkheim, Mircea Eliade e Clifford Geertz.

Depois deste capítulo, o autor encaminha a conclusão, as referências (dividas em principal e complementar), além de anexos (entrevista, imagens e texto do espetáculo Inderna de Intão), glossário (muito interessante para a compreensão de termos e palavreados dos participantes da folia) e o índice onomástico.

Do ponto de vista metodológico o autor seguiu o seguinte roteiro: identificar, descrever e registrar características das folias do Divino no interior de Goiás, em seus aspectos sagrado e profano; registrar as características da Folia de Roça do Novo Gama; fazer estudo comparativo e determinar as implicações do comportamento espetacular dos foliões para o seu cotidiano.


Mouros e cristãos – Caminhos, cenas, crenças e criações: análise dos espetáculos de tradição carolíngia Auto de Floripes (Príncipe, São Tomé e Príncipe, África) e luta de mouros cristãos (Prado, Bahia, Brasil), de Alexandra Gouvêa Dumas (2011) / https://repositorio.ufba.br/ri/handle/ri/27299

Sobre a organização do conteúdo desta tese, a autora apresenta duas estruturas: uma do índice, enumerada a partir da introdução (de 1 a 6, subdividido em tópicos), e outra que atravessa essa distribuição subdividindo o conteúdo em: introdução, capítulo 1 (historiografia), capítulo 2 (o espetáculo das manifestações) e as considerações finais. Trata de dois folguedos distintos, com significativas diferenças, mas que utilizam a mesma matriz literária, e acontecem no Brasil e África.

No primeiro capítulo, a autora faz uma contextualização histórica territorial a partir de fontes literárias e históricas, estabelecendo a relação entre os dois países, a colonização portuguesa e suas consequências sobre esses povos, quer seja cultural ou social (tópico 2). A autora apresenta as narrativas carolíngias (tópico 3) atuantes “nos processos de produção, transmissão, recepção, assimilação e conservação desse conhecimento: a oralidade e escrita” (p. 135). Ela traça uma espécie de genealogia possível para a formação dos dramas carolíngios.

No segundo capítulo são apresentadas as duas manifestações: Auto de Floripes (tópico 4) e a Luta de Mouros e Cristãos (tópico 5). Os elementos cênicos, a estrutura dos dois espetáculos, a relação com os indígenas (Prado) e com a cultura africana (Príncipe), as etapas de realização de cada espetáculos; tudo muito detalhado e com imagens (fotografias, ilustrações, tabelas e outras representações gráficas).

Nas considerações finais a autora faz uma análise comparativa entre dois folguedos destacando a execução do projeto de colonização aplicado através das estratégias e evangelização, povoamento, planejamento econômico e cultural, embora cada território tenha absorvido e assimilado tudo isso de acordo com suas particularidades, evidenciadas nas duas manifestações.

As referências bibliográficas são bem detalhadas em sua organização, embora a autora use um subtítulo (Tradições carolíngias) como guarda-chuva para todas as referências, divididas em: 1 – Carlos Magno, 2 – Tradições carolíngias no Brasil, 3 – Tradições carolíngias em São Tomé e Príncipe, 4 – Tradições carolíngias na Europa, 5 – Etnocenologia e Artes do Espetáculo, 6 – Memória, oralidade e escrita e 7 – Referências gerais, Discografia e Filmografia (esses dois últimos sem numeração). Na sequência vêm e Fotografias (com links que, infelizmente, não estão funcionando), o índice onomástico e um apêndice com anotações da viagem da autora a São Tomé e Príncipe.


Entre raízes, corpos e fé: trajetórias de um processo de criação em busca de uma poética da alteridade, de Marlini Dorneles de Lima (2016) / https://repositorio.unb.br/handle/10482/22822

Esta tese se organiza em três capítulos (embora a autora se refira a quatro no texto) e aborda o lugar do corpo e suas infinitas possibilidades de explorar territórios poéticos na estética cotidiana e saberes e fazeres tradicionais de mulheres parteiras, raizeiras e benzedeiras do cerrado. Tem como referencial teórico a etnocenologia, antropologia, sociologia, filosofia e estudos da dança. A pesquisadora ainda acrescenta que, para não romantizar a abordagem (conforme orientação da própria etnocenologia), ela elaborou questionamentos que orientaram os caminhos metodológicos da investigação.

No primeiro capítulo a autora fala de seu trajeto de formação na dança, como mulher, artista e docente. Ela faz várias reflexões sobre o encontro da artista-pesquisadora com objeto de pesquisa a partir de referenciais teóricos que defendem uma postura ética e estética frente ao ato de pesquisar em arte, através de um processo de descolonização dos saberes do e no corpo na formação e criação em dança.

No capítulo II a pesquisadora apresenta e dialoga com as mulheres parteiras, raizeiras e benzedeiras do cerrado, pontuando a importância do bioma dentro desse contexto. Assim, apresenta poemas e autores que abordam a relação da corporeidade constituída nas interconexões entre cultura e natureza. A autora busca a compreensão desse lugar de saberes e fazeres da margem que possam ser traduzidas a partir de matrizes estéticas e poetnografias dançadas. Ela, ainda, realiza uma oficina como espécie de “troca de saberes” em um dos lugares pesquisados.

No capítulo III, faz uma reflexão dialógica sobre a trajetória de investigação, se aproximando da discussão sobre a descolonização do corpo a partir de teóricos como Boaventura e outros que reivindicam uma micropolítica do corpo que dê visibilidade a aspectos sensoriais e à sensibilidade do corpo vivido e seu estado poético. Apresenta ideias e perspectivas teóricas que alicerçam a construção da noção de poetnografia, descrição e tradução das matrizes estéticas.

Por fim, a autora faz as considerações finais e apresenta os referenciais bibliográficos de forma corrida, sem nenhuma divisão relacionada a tema ou material/suporte. Toda a tese é atravessada por textos poéticos e imagens que, em especial na abertura dos capítulos, ocupam toda a página.


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